quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O INÍCIO DA SAÚDE PÚBLICA EM ALAGOAS (1892)

Maceió Praça Dom Pedro II na década de 1950




A SAÚDE PUBLICA EM ALAGOAS
Pelo Dr. ROCHA FILHO
Director de Saúde Publica do Estado


A Saúde Publica em Alagoas foi iniciada na administracao do Sr. Capitão Gabino Besouro, tendo sido creada urna Inspectoria Geral de Hygiene Publica, que foi entregue ao zelo do Dr. Alfredo Rêgo (1892).

Segundo testemunho do proprio Dr. Rêgo, elaborou-se, então, pela primeira vez no Estado, um regulamento sanitario. Muito teve que fazer o nascente servioo de saúde publica, principalmente contra a variola, que nesse tempo assoloava a nossa capital. “Com a população de cerca de 40,000 habitantes-assim afirma o Dr. Rêgo-Maceió pagou ao terrivel mal epidemico o pesado tributo de 4,000 vidas, aproximadamente.” Como um complemento á sua obra de combate á
variola, conseguiu o Dr. Rêgo que os governantes de então construissem um hospital de isolamento, cuja croquis foi feito pelo proprio inspector de hygiene. Continuando a desempenhar as suas funcões sanitarias na administracão do Cel. J. Vieira Peixoto, o Dr. Rêgo conseguiu installar, em Maceió, um desinfectorio, que foi de grande utilidade no momento.

Em 1909, a Inspectoria de Hygiene passou ás mãos do Dr. Sylvio Moeda, passando em 1910, das mãos deste para as do Dr. Arthur Machado. Em 1911 assume a chefia dos servicos sanitarios do Estado o Dr. Hebreliano Wanderley. Ainda no mesmo anno a Inspectoria de Hygiene é entregue ao Dr. Tito Augusto. Em 1912, agora sob o rotulo de Directoria de Hygiene Publica, os servicos sanitarios sao entregues ao Dr. M. Moreira e Silva, em cujas mãos ficaram até 1914. De 1914 a 1919, sob o antigo rotulo de Inspectoria de Hygiene, a saúde publica 6 confiada ao Dr. Oswaldo Sarmento. 0 Dr. Hebreliano Wanderley, já com os seus servicos prestados á causa da saúde publica no Estado, foi novamente nomeado Inspector de Hygiene em 1920, permanecendo no cargo até 1925, quando a reparticão sanitaria ficou subordinada ao Serviço de Saneamento Rural, situacão essa que durou até 1930.


A lei que subordinou a saúde publica local ao Serviso Federal foi publicada no Diario Oficial de 30 de janeiro de 1925, quando era Governador do Estado o Exmo. Snr. Pedro da Costa Rêgo. Com o triumpho da revolução liberal, em 1’930, extincto o Serviço de Saneamento Rural, por medida de economia, a reparticão sanitaria do Estado foi novamente entregue, em 1931, á operosidade do Dr. Wanderley. Ainda no mesmo ano, e agora com o titulo de Departamento de Saúde Publica, a repartição sanitaria ficou sob a direccão do Dr. Afranio Jorge, que nella permaneceu ate 1932.

Neste ano, foi a saúde publica completamente reformada, dando-lhe o seu novo director, o zeloso e competente Dr. Vergilio de Uzêda, a mais moderna organização sanitaria. Esta organização, que foi a de Centro de Saúde, permaneceu até o momento em que assumi a direccão de Saúde Publica, si bem que a administração que me antecedeu tivesse feito modificacóes, que collimaram na destruicão do Centro de Saúde da Capital.

Anno de 1935.-Ao assumir a direção,da Saúde Publica em maio de 1935, verifiquei que ella náo estava correspondendo ás suas finalidades. 0 Centro de Saúde, pivot das modernas organizacóes sanitarias, fôra destruido. Do antigo Centro de Saúde restavam apenas dois ambulatorios: o de tuberculose e o de syphilis, doencas venereas, lepra e endemias ruraes. 0 ambulatorio de olhos, ouvidos, nariz e garganta, para exames de adultos, fôra afastado, juntamente com o gabinete
dentario e o servico de hygiene infantil, para um dispensario na Levada. 0 servico pre-natal passou a ser feito por uma instituição particular, 0 Instituto de Proteção á Infancia, na rua Libertadora Alagoana.


A estatistica vital estava abandonada, náo sabendo os funccionarios nos informar desde quando náo era publicado o Boletim de Demographiu. 0 servico de propaganda e educacao sanitarias estava tambem de fôgo- morto. 0 boletim mensal de saúde publica há mais de um anno que não circulava. No interior, nenhum servico de saúde publica, a náo ser um arremedo de posto rural que existe em Palmeira dos Indios, com o nome de Posto Itinerante.

Logo que assumi a Direção, procurei restaurar o antigo Centro de Saúde de Maceio, reunindo todos os servicos num mesmo predio, com o fim de evitar uma dispersáo de actividades e ao mesmo tempo facilitar a fiscalizaqão dos servicos. Infelizmente até hoje náo consegui este meu
desejo, dada a pobreza do Estado em materia de predios publicos. 0 servico de propaganda e educação sanitarias teve o melhor das minhas energias. Até dezembro do anno 1935 circularam sete numeros do Boletim de Saúde Publica, orgáo destinado á propaganda e educaçã0
sanitarias.

Além deste jornal mensal de propaganda e educaçã0 sanitarias dei varias entrevistas, focalizando problemas de saúde publica.
A vaccinacáo contra a variola foi outra grande preoccupapáo da Directoria de Saúde Publica, no ultimo semestre. Até 31 de dezembro 1935, a repartição vaccinou 86,225 pessaas. As localidades em que appareceram casos de variola foram as seguintes: Anadia, Atalaia, Capella, Camaragibe, Limoeiro de Anadia, Maceió, Muricy, Maragogy, Penedo, Pilar, Palmeira dos Indios, Porto Calvo, Piassabussú, Quebrangulo, Sáo José da Lage, Sáo Luiz do Quitunde, Sáo Miguel de Campos, Uniáo e Vicosa. A peste bubonica foi tambem objecto de nossos esforcos, tendo sido extinctos dois grandes surtos epidemicos, sendo um em Chá-Preta (Vicosa) e outro em Limoeiro de Anadia. A Directoria de Saúde Pu- blica distribuiu pelo interior do Estado, durante o ano de 1935,milhares
de comprimidos contra o impaludismo e outros tantos milhares de perolas contra as verminoses.

Além de seus ambulatorios, que funccionaram regularmente durante todo o armo, a repartição sanitaria ainda forneceu, por solicitapáo da irmá superiora, medicamentos á Casa do Pobre.
Segundo o relatorio do Dr. Ederlindo Serra, bacteriologista-chefe, o laboratorio apresentou o montante de 6,509 exames de natureza varia; a pharmacia aviou, por sua vez, 11,238 receitas. 0 percentual maior dos trabalhos realizados é representado pelas remessas de fezes para ovo-helmintoscopia e exames bacteriologicos, e candidatos á carteira de sanidade, num total de 14,975. Do ponto de vista da infestação helmintica, temos a percentagem 83.31 por cento, ou sejam 1,653 positivos para 322 resultados negativos, 16.31 por cento.

Preciso em 92 por cento o verdadeiro percentual de positividade, se estas pesquisas vierem a ser feitas com certo rigor. Topamos frequentemente casos de poliverminose; raramente os encontramos de verminose simples. Distribuidos pelos helmintos existentes em nosso meio, apparecem as cifras seguintes: 73.82 por cento para Ascaris lumbricoides; 32.22 por cerito,
Trichocephalus trichiura; 36.54 por cento Ankylostoma duodenaíe; 5.92 Schistosoma mansoni, e 0.19 para Oxyuris, Enterobius vermicularis.

Em seguida vêm as analyses de leite em numero de 1,398; os exames de urina subiram a 1,007. Em ordem decrescente surge o total de pesquisas para a verificapáo do bacilo de Koch, com uma entrada de 852 requisicóes, sendo 156 positivos ou 18.3 por cento. Agora os exames
sôrologicos para verificaçã0 de lues, os quaes attingem a 498, sendo 473 positivos ou 96.92 por cento. Comquanto seja alarmante, em relativo confronto com o indice da Capital do pais, todavia tem decrescido consideravelmente o numero de requisições do Centro de Saúde, ao se comparar com a cifra de 1934, representada por 1,051. Este coefficiente nos foi dado pela reacáo de Kahn. Depois da syphilis, a disenteria, maxime a bacilar, que passa ás vezes como infeccáo intestinal no adulto e disturbio toxico alimentar na crianca. Recebemos 41 fezes para verificar a existencia de bacilo disenterico e 122, a de ameba histolitica.

Graças a nossa insistencia em repetir a pesquisa, conseguimos identificar o bacilo de Shiga 2 vezes, o Flexner uma, e 3 o de Hiss. Notamos a presença de ameba histolitica 21 vezes. A disenteria bacilar apresenta a reduzida percentagem de 14.63 por cento e a amebica 27.21. Com uma contribuicáo consideravel para os nossos resultados, a ophtalmia purulenta e a gonorrea com 87 casos sendo positivos, ou 85.05 por cento.

Chegou a vez da febre typhica, que nos traz sua contribuiçãozinha de 144 casos, dos quaes 54 positivos ou 37.5 por cento. Tivemos um caso em que, só depois dos vinte dias, foi o Widal positivado. Nesse andar, damos de frente com o impaludismo, que entra com sua quota de 56
casos, dos quaes obtivemos, somente, confirmacáo de 3 ou 5.36 por cento.

A diphteria concorreu com 35 casos, que deram 25 positivos, sejam 71.42 por cento. A lepra apparece com a insignificante parcella de 9 casos em que se evidenciou o bacilo de Hansen sórnente uma vez, 11.1 por cento.

Tivemos um caso de cancro venereo com Ducrey positivo e dois de protosifiloma em que pesquisamos com sucesso o treponema palido uma vez. De meningite cerebro-espinhal tivemos um caso confirmado. No unico caso suspeito de leishmaniose, náo conseguimos encontrar o agente responsavel. Foram attendidas por o servico anti-rabico 130 pessôas, das quaes 113 concluiram o tratamento adequado e 17 o abandonaram.

Hygiene infantil.-0 servico de hygiene infantil muito fez durante o ano que se findou. A sua matricula, que foi em 1933 de 936 creanoas e em 1934 de 988, passou a ser em 1935 de 1822.

Todos os demais servicos funccionaram regularmente. A Directoria tem dividido o Estado em oito zonas, localizando em cada zona um Posto de Hygiene. Dos oito postos ficou determinado que apenas se installassem os de Camaragibe, Muricy, Páo de Assucar e Coruripe, por
faltarem nestes municipios toda assistencia medico-social.


* Tomado do Relatorio apresentado ao Snr. Secretario do Interior, Educação e Saúde.

Texto Original : BIREME

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