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18 de janeiro de 2012

Eles contam cadáveres : Chapéu de Couro, suspeito de executar deputada alagoana

Eles contam cadáveres : Caso de Chapéu de Couro, suspeito de executar deputada alagoana, mostra a sobrevivência dos pistoleiros que matam por encomenda
por Luciana Pinsky 
Época 1999



O mesmo Congresso Nacional que na quarta-feira 13 esteve no centro das atenções das bolsas de valores de todo o mundo ao aprovar o minipacote fiscal do governo parou 24 horas depois para ouvir o depoimento do pistoleiro Chapéu de Couro. Esse é o nome de guerra do alagoano Maurício Novaes Guedes, 58 anos. Ele diz que é transportador de cargas em Juazeiro (BA). A divulgação de uma fita gravada com uma conversa entre Novaes e o deputado Talvane Albuquerque (PFL-AL), no entanto, mostrou que uma de suas atividades é matar. Ele é pistoleiro - matador profissional. Pela cabeça do deputado Augusto Farias (PPB-AL), que revelou a fita, Talvane pagaria R$ 200 mil a Chapéu de Couro. 

Outra deputada, Ceci Cunha (PSDB-AL), foi assassinada em dezembro, em Maceió. O principal acusado pelo crime é Chapéu de Couro. A acusação de ser autor intelectual - mandante, no jargão pistolês - recai sobre Talvane. O caso agitou a política alagoana e chocou o país. Mostrou estarem vivos personagens que nos livros de Guimarães Rosa e Jorge Amado eram chamados de jagunços e habitavam os sertões e a região cacaueira da Bahia. Época ouviu mais de uma dezena de relatos de pistoleiros dizendo como e por que matam. Quatro desses relatos e mais uma reveladora entrevista de Chapéu de Couro podem ser lidos nesta reportagem. A pistolagem não é um fenômeno exclusivamente nordestino. Tampouco um problema restrito às regiões onde os conflitos são os mais atrasados possíveis - como poderiam indicar as 1.039 mortes computadas, de 1985 para cá, pela Comissão Pastoral da Terra em conflitos entre sem-terras e fazendeiros. 

Em maio passado, em plena luz do dia, foi morto em frente a sua casa o delegado-corregedor da Polícia Federal em São Paulo Alcioni Santana. A suspeita: os pistoleiros Carlos Alberto Gomes, de 39 anos, e Gildásio Teixeira de Roma, de 26, já presos, teriam sido contratados pelo delegado federal Carlos Leonel Cruz. Ele está preso e era um dos investigados pelo corregedor. Em outubro, no Rio, Paulinho de Andrade, herdeiro do magnata do bicho Castor de Andrade, foi fuzilado no centro da cidade. O assassino, o ex-PMJader Simeone, está preso, mas Rogério de Andrade, primo de Paulinho e apontado como mandante, fugiu. 

"Nas capitais do Sudeste brasileiro, a matança deve-se menos a rixas entre famílias e grupos políticos", explica o sociólogo Sérgio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo. Nas grandes cidades, quem mais mata são grupos organizados para mediar a guerra entre os pequenos comerciantes e os pequenos meliantes - assaltantes e menores de rua. Nessa guerra, existem dois tipos de exército. Os justiceiros não agem somente sob encomenda, à moda dos pistoleiros. Fazem, quase sempre de maneira individual, rondas pelos bairros pobres - no vácuo do policiamento preventivo que deveria ser feito pelas polícias militares. O segundo exército das batalhas urbanas são os grupos de extermínio, os antigos esquadrões da morte. "Os grupos de extermínio eliminam até mesmo pessoas que são apenas suspeitas de algum crime", diz Sérgio Adorno. Mais ideológicos, esses grupos praticamente substituíram a figura do justiceiro nos anos 90. Eles são produto da insatisfação das alas "duras" da polícia com a Justiça e com as políticas de respeito aos direitos humanos adotadas por governadores de estado desde que estes voltaram a ser eleitos diretamente, em 1982. 

Os pistoleiros do sertão nordestino têm uma raiz histórica muito mais antiga. "O pistoleiro surgiu junto com os cangaceiros", explica o historiador Frederico Pernambucano de Mello, da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife. Mello conta que os pistoleiros eram contratados por bandos de cangaceiros para fazer serviços discretos. "Por causa da roupa característica, a presença dos cangaceiros era facilmente notada nas cidades", diz. Segundo ele, os bandos desprezavam os pistoleiros porque estes não enfrentavam a polícia e só matavam quando sabiam não haver risco. Em geral, surpreendiam a vítima usando a tocaia. Muito visados e perseguidos, os cangaceiros desapareceram. Já os pistoleiros... continuam a existir e até depõem no Congresso. 

Segundo o sociólogo César Barreira, da Universidade Federal do Ceará, existem três tipos de pistoleiro. O primeiro, tradicional, tem um único patrão (em geral, um fazendeiro) que o paga com sustento e proteção. O segundo tipo é o ocasional. "É alguém que cometeu o primeiro crime no campo e vai para a periferia das cidades. De vez em quando é lembrado pelos intermediários, muitas vezes ex-pistoleiros, para executar um serviço", explica ele. O último figurino é o do pistoleiro profissional, que vive de matar. Ao contrário dos antigos, é pouco conhecido e falado e não age em um único lugar. Assim como ocorre com o matador ocasional, é acionado por um intermediário que cuida também de arrumar proteção. "Essa proteção às vezes é dada por acordos espúrios entre os mandantes e os órgãos de segurança com certa conivência da Justiça", acusa o estudioso César Barreira. 

A Justiça, com sua lentidão, e a polícia, desaparelhada, estão presentes em qualquer diagnóstico a respeito da sobrevivência da pistolagem em tempos de globalização. "O sistema judiciário brasileiro não foi feito para resolver os conflitos da sociedade, mas para punir. O cidadão passa a simpatizar com as soluções particulares dos conflitos", acrescenta o antropólogo Roberto Kant de Lima, da Universidade Federal Fluminense. "Os crimes desse tipo só fizeram piorar nos últimos dez anos por causa da impunidade", diz a palavra-chave o ex-procurador-geral da Justiça de Alagoas Dilmar Camerino. Seu estado tem tradição no ramo. Ali, tornaram-se famosas as matanças promovidas pelas famílias Calheiros e Malta. Em 1990, Joãozinho Malta, irmão mais novo da então primeira-dama, Rosane Collor, atirou no prefeito de Canapi (AL). Três anos antes, aos 15, havia assassinado o genro do prefeito de Mata Grande, José Maurício Sobrinho. Joãozinho está solto. Nos anos 60, ficou célebre a rixa entre as famílias Calheiros e Omena. O assassinato do cabo Henrique Omena por Ernesto Calheiros condenou à morte mais quatro Omena e cinco Calheiros. 

O secretário Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, José Gregori, reconhece a persistência do problema: "É uma prática tão secular que só falta os pistoleiros pedir aposentadoria ao INSS". Mas Gregori vê avanços na ação governamental. "Estamos dando sinais vigorosos de que não vamos admitir essa prática", diz. Entre os acertos o secretário cita a atuação da Polícia Federal nos casos em que as autoridades de segurança estaduais não demonstraram eficiência, como ocorreu no próprio episódio Chapéu de Couro, capturado pelos federais. "Tivemos bons resultados punitivos, como na prisão dos mandantes do assassinato de Chico Mendes, mas ainda não conseguimos agir duro para prevenir. Algo que faça estas famílias e pessoas que se julgam acima da lei desistir de contratar matadores", completa o secretário Gregori. Para dar esse passo, ele apresentou projeto de lei prevendo que o procurador-geral da República ou o Conselho Nacional de Defesa da Pessoa Humana possam requisitar para a esfera federal o julgamento de crimes de pistolagem nos quais se comprove cumplicidade ou falta de estrutura da Justiça local. O projeto, mal recebido no Congresso, foi devolvido a Gregori. A julgar pelo caso Ceci-Farias-Talvane, é compreensível o constrangimento de muitos parlamentares em tocar no assunto. Com o século 21 batendo à porta, o país ainda convive com uma prática criminosa ancestral. 




O IRMÃO CANGACEIRO 

Irmão de Chapéu de Couro comandou o último bando de cangaço do país 

Guerreiros do Sol 

É o nome do livro do pesquisador pernambucano Frederico Pernambucano de Mello, da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife, que descreve a ação do grupo liderado entre 1960 e 1967 por Floro Novaes, irmão mais velho de Chapéu de Couro. Floro morreu em 1971, vítima de uma emboscada, aos 40 anos, depois de ter executado mais de 120 pessoas. Seu filho Ezequiel, pistoleiro, morreu há três anos.



O MAPA DA PISTOLAGEM 

Onde e como atuam os matadores profissionais em todo o país 

Nas regiões de conflito por terras do sul do Pará, pistoleiros contratados por fazendeiros atuam executando líderes sindicais e padres. 

No Acre, foi descoberto um grupo de extermínio que jurou de morte até o presidente do Tribunal de Justiça do estado, desembargador Gersino Silva. 

Em Rondônia, assim como em outros estados do Norte, como Acre e Roraima, pistoleiros agem dentro dos conflitos surgidos nas áreas de garimpo. 

No Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, conflitos entre traficantes de armas e drogas são resolvidos, muitas vezes, por pistoleiros contratados. 

No Maranhão, circulam tabelas de preços pelas cabeças de juízes, promotores e políticos, distribuídas pelos pistoleiros. 

No Piauí, a ação de pistoleiros tem sido ligada à guerra entre quadrilhas de roubo de carga. 

Os estados do Ceará e de Alagoas registram até hoje assassinatos encomendados por deputados e prefeitos cometidos por pistoleiros. 

A Escuderie Le Coq, formada por policiais do Espírito Santo, é um dos mais violentos grupos de extermínio do país. 

Os justiceiros atuam nas periferias de Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro e São Paulo. Perseguem principalmente menores de rua, assaltantes e pequenos traficantes.



TRÊS FORMAS DE MATAR 


Pistoleiros - São os matadores contratados para executar alguém, com preço combinado, muitas vezes seguindo uma tabela de preços. Atuam tanto no interior do país quanto nas grandes cidades. 

Grupos de extermínio - Os antigos esquadrões da morte. Geralmente formados por policiais e ex-policiais, atuam na periferia das capitais brasileiras, assassinando criminosos, suspeitos e inocentes. 

Justiceiros - Contratados por comerciantes das periferias das metrópoles, fazem patrulhas e perseguem até a morte suspeitos de cometer assaltos e assassinatos.



ENTREVISTA 

"Coisa ruim a gente esquece" 

Sem sequer lembrar quantos homens já matou e acusado de assassinar a deputada Ceci Cunha, Chapéu de Couro fala da morte e de quem a encomenda 

Época: Quem foi sua primeira vítima? 
Chapéu de Couro: Não lembro o nome nem como foi. Só sei que eu tinha 15 anos. Tudo começou porque meu pai, Ulisses Gomes, foi assassinado quando eu tinha 9 anos. Meu irmão Floro foi se vingar e eu também entrei na briga. 

Época: Qual foi a última? 
Chapéu de Couro: Estou com 58 anos. A última vez que me envolvi em confusão eu tinha 35. Desde então, ando limpo. Já quiseram me incriminar em coisa que não fiz. Há dois anos moro em Juazeiro (BA) e só ando desarmado. Eu estava vivendo tranqüilamente de frete com um salário de R$ 900. 

Época: Quanto já ganhou matando? 
Chapéu de Couro: Nunca recebi dinheiro algum. Pistoleiro que ganha só vive no máximo até os 40 anos. Eu, graças a Deus, consegui sobreviver. Só mato por vingança, briga ou defesa própria. 

Época: Quantos o senhor já matou? 
Chapéu de Couro: Não sei dizer não. Coisa ruim a gente esquece. 

Época: Por que o senhor telefonou para o deputado Talvane Albuquerque? 
Chapéu de Couro: Porque ele procurou minha irmã e pediu retorno. 

Época: Por que ele o procurou se o senhor estaria afastado do crime há 23 anos? 
Chapéu de Couro: Ele me conhecia de infância, lá de Arapiraca. 

Época: Ia matar Augusto Farias? 
Chapéu de Couro: O Talvane queria me contratar para isso. Por isso passou uns três dias em Juazeiro no final de outubro, com três assessores. Mas eu não queria matar ninguém, não. 

Época: Então por que o senhor não disse logo que não iria fazer o serviço? 
Chapéu de Couro: Tive medo de morrer, por isso disse que faria. Eu fiquei enrolando Talvane porque sabia que ele tinha pressa. Disse que "os litros de mel" (pistoleiros) estavam em outro serviço e que teria que adiar a história. Quando falei isso, o Jadielson disse que esse diploma ele daria para o doutor Talvane mesmo se precisasse desaparecer. 

Época: Por que Talvane tinha pressa? 
Chapéu de Couro: Ele não queria perder a imunidade parlamentar. Tem medo dos processos que teria de responder. Tenho certeza que Albuquerque matou Ceci Cunha. Ele estava desesperado pelo cargo. 

Época: O senhor cobrou R$ 300 mil? 
Chapéu de Couro: Falei que eu mesmo faria o serviço se o Roberto Brasília, meu genro, concordasse em participar. Já tínhamos combinado tudo. Ele pediu alto, R$ 300 mil. Depois abaixamos para R$ 200 mil. Só faríamos com o dinheiro na mão. Assim, ganhei mais tempo. Eu não pegaria esse dinheiro. 

Época: Ceci Cunha foi mencionada? 
Chapéu de Couro: Não diretamente. Mas eu estava com um boné da deputada e Albuquerque me disse que ela era sua inimiga, mas não poderia matá-la porque haveria desconfiança em relação a ele. Falou também no deputado Albérico Cordeiro, mas descartou pelo mesmo motivo. 

Época: Talvane citou outros nomes? 
Chapéu de Couro: Disse que gostaria de tirar uns espinhos de seu caminho quando assumisse o cargo. Queria matar mais uns dez ou 20 e citou a prefeita de Arapiraca, Célia Rocha, o presidente do TRE e o radialista Alves Corrêa. 

Época: Ceci foi morta por pistoleiros? 
Chapéu de Couro: Não. Se fossem pistoleiros, eles matariam só a deputada e não os três inocentes que foram junto. Acho que foram os seguranças de Talvane que fizeram isso. Eles estavam com medo de ser reconhecidos e por isso fizeram a matança. 

Época: Augusto Farias lhe ofereceu algum dinheiro? 
Chapéu de Couro: Ele ofereceu, mas eu disse que não queria nada, não. Falei que, se algum dia eu precisasse de um favor e isso estivesse ao alcance dele, eu pediria. 

Época: Esses seus anéis são de ouro? 
Chapéu de Couro: Sim. Um é ouro com rubi e o outro é ouro com diamante. Foi presente de um amigo garimpeiro. Posso passar fome, mas não vendo eles. 


Lp em Maceió


"Eu era investigador até ser expulso, em 1988. Em 12 anos de polícia, tomei 46 tiros. Faz tempo que não mato. Mas aqui em Manaus contratar alguém para matar um cidadão custa R$ 500. Político famoso custa R$ 50 mil. Esposas de maridos traídos ficam entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. Minha arma preferida é a faca. Enfio na nuca e o cara morre sem fazer barulho. Matei pela primeira vez antes de entrar na polícia, atirei num cara que havia me assaltado. Como investigador, o primeiro que matei foi um delegado que me perseguia. Na polícia, matei 11 numa semana, em rondas na periferia. Jogava os corpos no Rio Negro. Antes abria a barriga, para encherem d'água e não boiarem. Nãlembro quantos matei, foram mais de 100. Durmo com as luzes acesas e a televisão ligada, senão entro em paranóia." 

JORINI (nome fictício), 45 anos, é matador em Manaus. Respondeu a 19 processos por homicídio, mas só foi condenado a um ano de cadeia por agressão. Não está preso 



"Trabalho sempre em dupla. Minha arma é o revólver 38, nunca falha. Ganhei o primeiro aos 15 anos. Logo surgiu o primeiro serviço. Fui sozinho, subiu um frio na barriga, mas sabia que meu destino era fazer. Todo mundo que morreu merecia. Não sinto pena. Hoje ninguém quer fama, o negócio é disfarçar. Não há prova contra mim. Estou limpo. Nunca fiquei mais de 24 horas preso. Tem que fazer o serviço certo, sem testemunha. Às vezes estudo os hábitos da vítima três, quatro meses. É como dentista. Quando se quer um bom profissional, é preciso perguntar se alguém conhece. O intermediário procura a gente. Recebemos metade do pagamento adiantado, dinheiro vivo. Há dez anos, fiz um serviço no Rio. Andei de avião pela primeira vez e ganhei uma boa grana, uns dois carros." 

O PISTOLEIRO que se identifica como Mário nasceu no Ceará. Casado, três filhos, atua no Pará, em Goiás e no Piauí. Já matou sob encomenda no Rio e em São Paulo. Está em liberdade 



" Já matei cinco. Mas só um foi mandado. Faz um ano. Matei o promotor (Manuel Alves Pessoa Neto) de Pau dos Ferros (RN) a pedido do juiz (Francisco Pereira Lacerda). Não tinha escolha. Se não matasse o homem, o doutor Lacerda se vingaria em mim ou na minha família. Eu era segurança do juiz. Ele estava com uns problemas com o promotor e pediu para eu fazer o serviço. Ele disse para eu não me preocupar com processo, que seguraria as pontas. Fui ao fórum e atirei no doutor Manuel. Desde que comprei meu primeiro revólver, aos 15 anos, sempre andei armado. Matei pela primeira vez aos 21. O homem estava atrás do meu primo e fui protegê-lo. A sensação não foi boa, não. Mas era ele ou eu. Fui julgado e absolvido por legítima defesa. Cinco anos depois, matei meu cunhado. Ele me fez uma emboscada, mas se deu mal. Larguei da mulher porque me lembrava o irmão. Fugi para o Maranhão. Lá matei um dono de oficina que tinha matado um parente meu. Me arrependo das mortes, mas não sei se poderia evitar." 

EDMILSON Pereira Fontes, 33 anos, está preso pela morte do promotor de Pau dos Ferros 



"Hoje estou tranqüilo, estou até cego de um olho. Vivem dizendo que eu matei mais de 100 cabras e que trabalho como agenciador de pistoleiros. Mas não é verdade. Matar, eu só matei um. E isso já faz uns 40 anos. E foi em legítima defesa. É que eu já virei uma lenda. Nem fui um pistoleiro de verdade. Matei apenas um sujeito que estava tentando me pegar. Dei 17 facadas nele e quatro tiros. Fiquei foragido durante quase dez anos, mas fui preso e já paguei pelo crime. Fiquei três anos e meio na cela de uma cadeia. Não devo mais nada à Justiça, pelo menos à Justiça dos homens. Muitos crimes eram atribuídos a mim sem qualquer motivo. Alguém morria e já vinham dizendo 'foi o Nilson Cunha que matou'. Fui preso umas oito vezes, mas nunca provaram nada contra mim. Acabavam sempre me liberando. Mas eu gostava de andar com uma arma e era muito bom de mira. Conseguia acertar em um cigarro a 10 metros de distância." 

NILSON CUNHA, 74 anos, vive aposentado em Pacajus, interior do Ceará. É uma lenda viva da pistolagem. A polícia cearense atribui a ele mais de 100 mortes

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