A hanseníase ao longo da História - Laurinda Maciel



Dos tempos bíblicos ao período moderno, a hanseníase foi descrita como uma doença que causava horror por conta da aparência física do doente não tratado – lesões ulcerantes na pele e deformidades nas extremidades e associada a estigma, os mais diversos. Esta marca de desonra fisicamente presente nas feridas e nos membros desfigurados do "leproso" e incorporada à sua identificação lançou a doença no lado mais obscuro da sociedade. Ela significou, ainda, ao longo de anos, exclusão do convívio social devido à única forma de tratamento existente até meados do século 20, que era o isolamento nos leprosários.




Retrato de um oriental (de 1639), do pintor holandês Rembrant van Rijn (1606-1669). Historiadores da arte acreditam que o quadro descreve o rei bíblico Uzziah, que foi atingido pela hanseníase após usurpar a autoridade de um templo sagrado

Este só passou a ser questionado a partir de duas premissas básicas: o avanço dos medicamentos quimioterápicos e a descoberta, através da pesquisa quantitativa e de laboratório, de que o isolamento não diminuía o número de casos. Até a década de 40 do século passado, a doença era tratada com óleo de chaulmoogra, medicamento fitoterápico natural da Índia, que era administrado através de injeções ou por via oral. Este medicamento, aliado ao isolamento, eram as formas de se tratar a hanseníase.


A Fiocruz, desde a década de 20, desempenhou um papel pioneiro na pesquisa básica quando um dos grandes leprologistas brasileiros, Heraclides César de Souza-Araújo, cientista do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), criou o Laboratório de Leprologia em 1927. Souza-Araújo, ex-aluno do curso de aplicação do IOC, ao mesmo tempo em que se dedicava à pesquisa com intuito de cultivar o bacilo, encontrar a cura para os doentes e um novo método de tratamento, atendia os pacientes infectados no Hospital de Manguinhos.


A criação do Ministério da Educação e Saúde, após a Revolução de 30, possibilitou a adoção de um modelo de controle da doença a nível nacional, o chamado "modelo tripé". Esta significou uma prática amparada na existência de três itens fundamentais e que se complementam: o leprosário, o dispensário e o preventório. Cada um destes tinha seu papel e agia diretamente sobre o que se acreditava estar amparada a cadeia epidemiológica da doença: o infectado (no leprosário), o comunicante (no dispensário) e os filhos dos infectados (no preventório). Assim, se acreditava na possibilidade de eliminação da doença em pouco tempo. No entanto, percebeu-se que os índices de cura não eram os esperados, assim como o número de casos que só aumentava por conta da busca ativa dos mesmos.


Com os avanços da indústria químico-farmacêutica e o emprego da sulfona no final da década de 1940 nos infectados internados, aliado ao avanço nas pesquisas laboratoriais que priorizavam conhecer a "vida" do bacilo e as possibilidades ou não de sua sobrevivência fora do meio humano, o isolamento mostrou aos pesquisadores que não era a maneira ideal de tratamento.


Um outro dado importante neste contexto foram as deliberações apresentadas ao final do 7º Congresso Internacional de Lepra, realizado em 1958, em Tóquio, e que refletem este momento vivido pela ciência: foi ratificado que a forma de contágio não era hereditária e havia possibilidade de cura com os antibióticos e sulfas. O isolamento em leprosários não deveria ser mais recomendado como fundamental no tratamento da hanseníase, pois os medicamentos químicos dariam ao paciente o bem estar necessário, fora dos muros do leprosário.




Iluminura catalã do século 14 mostra o personagem bíblico Jó atingido pela hanseníase
No Brasil, o isolamento foi considerado extinto em 1962 com a aprovação do decreto nº 968, de 7 de maio, apesar de estados como São Paulo não cumprirem tal lei, já que até 1967 se manteve tal prática. Na década de 1970 a Organização Mundial da Saúde recomendou o emprego da poliquimioterapia no Brasil e, paralelamente a isto, começou um movimento com o intuito de minimizar o preconceito e o estigma contidos no termo "lepra". Assim, oficialmente no país foi abolido o uso da palavra lepra e seus derivados, passando a ser designada como "hanseníase".

Na década de 80, com o término de uma ditadura de 20 anos e a busca da democracia, assim como a realização da 8ª Conferência Nacional de Saúde recuperando os direitos dos cidadãos, foi também o momento em que se perguntou o que fazer com os pacientes que ficaram décadas internados e isolados. Os leprosários tiveram o seu papel redefinido e muitos foram transformados em hospitais gerais, como é o caso do Hospital de Curupaiti, no Rio de Janeiro, e outros em centros de pesquisa, como é o caso do Sanatório Aymorés, que se transformou no Instituto Lauro de Souza Lima, em Bauru. Como forma de assegurar os direitos dos pacientes e atentar para o seu papel de cidadão, garantindo a sua reinserção social foi criado o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), que é um dos mais bem-sucedidos movimentos sociais no Brasil, com representação no Conselho Nacional de Saúde.

* historiadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC)

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