Papa Francisco: três luzes e uma sombra - Henrique Monteiro




A Igreja Católica é uma organização que se caracteriza pela lentidão das suas mudanças. Talvez por dar muita atenção ao passado e não aderir ao que pensamos ser o futuro sem o cuidado próprio dos conservadores, aguenta firme e em posição importante há 2000 anos, talvez a instituição mais antiga do mundo, sobrevivendo às sucessivas ondas de materialismo, relativismo, cientifismo e ateísmo que a sociedade foi (e vai) conhecendo.

Tudo na Igreja é, também símbolo. Porque os símbolos poupam palavras e permitem interpretações diversas; são abrangentes, não excluem.

Ao escolher um Cardeal argentino a Igreja sublinha este símbolo: o cristianismo, embora esteja na base da cultura europeia, já há muito extravasou o Velho Continente. O significado da palavra Católico (que quer dizer universal) é vincado e, se não é a primeira vez que um Papa não é europeu (o último tinha sido no séc. VIII, ainda havia a recordação do Império Romano, que se estendera por três continentes), é o primeiro Papa ao Sul do Equador. Esta foi a primeira luz da eleição.

A segunda foi escolher um homem que se distinguiu por não ser faustoso. Um homem que viaja em turística, que anda de metro e autocarro em Buenos Aires e recusou viver no Paço Episcopal para morar num apartamento onde cozinha as suas refeições. Um homem que foi engenheiro antes de padre e que adora futebol e tango. Que viveu na Europa, em mais do que um país, além de ter estudado no Chile e na Argentina. Não é o que se costuma chamar "um rato de biblioteca" e menos ainda um "rato de sacristia", teve namoradas, segundo se diz. Esta 'humanização', que se segue a essa outra humanização que foi a renúncia de Bento XVI, é um sinal positivo.

A terceira luz e a mais importante, é o nome que escolheu e a cultura que tem. Os Jesuítas (e ele é o primeiro Papa oriundo da Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola) dedicam boa parte da sua vida à cultura e ao ensino. São, no geral, homens de grande bagagem cultural. Ao escolher o nome Francisco, o Santo do despojamento e dos pobres, faz, simbolicamente, um programa. As tentações e as corrupções que atingiram a Igreja, nomeadamente nos escândalos relacionados com o IOR (ou o Banco do Vaticano) serão combatidas.

Mas há, no entanto, algo que assombra a sua vida. Não sei se os críticos têm razão, mas as suas relações com a ditadura argentina, na década de 70, terão sido mais amistosas do que o recomendável. Não faço ideia se assim foi, mas sei que nos dissabores que tem tido com o casal Kirchner - na denúncia de um fausto idiota e na falta de combate à corrupção num país que ainda é pobre - as pessoas decentes estarão ao seu lado.

O grande historiador francês Jacques Le Goff (citado hoje no 'Público' por Jorge Almeida Fernandes) disse o seguinte: "Não obstante os atrasos e a lentidão, não obstante as crises que fustigam as religiões, [a Igreja Católica] sobreviveu perfeitamente porque sempre soube adaptar-se às mutações profundas deste mundo. E creio que estamos a assistir a um desses acontecimentos característicos do cristianismo". Penso que é exatamente isto. Para lá da espuma que são as discussões (importantes, sem dúvida) acerca do aborto ou da homossexualidade, que tanto motivam sobretudo os não católicos, a Igreja já percebeu que não pode manter no mundo moderno os tiques, a riqueza, a preponderância e até a arrogância que tinha em séculos anteriores. 

Francisco (que não é Francisco I porque nunca houvera qualquer Francisco) é o símbolo ainda mais marcado dessa transição.


Twitter: @HenriquMonteiro 

Fonte: .http://expresso.sapo.pt/papa-francisco-tres-luzes-e-uma-sombra=f793496#ixzz2NX7nbuL1.

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