Médicos Cubanos

O crescimento urbano desordenado que se observa há mais de quatro décadas no Brasil criou mais problemas que soluções para a nossa população. A êxodo rural amontoou as grandes cidades e deixou o campo e os pequenos municípios a mercê desse ou daquele governante, num raro momento de inspiração levar alguma estrutura ao interior.

Isso em todos os setores, principalmente na saúde. Os hospitais e clínicas mais bem equipados estão nos grandes centros. Esse abandono é uma missão quase que impossível de ser revertido.

O caso da importação dos médicos cubanos e de outros países expõe essa ferida. Tudo o que se fez pela saúde, respeitou a regra da concentração. Agora a ficha caiu. Os gestores sempre deram prioridade a outros setores e abandonaram a saúde, lógica que, agora, de afogadilho, em mais uma iniciativa unilateral o governo tenta resolver.

Ora, já não vivemos numa época em que a comunicação é tão fácil? A interação entre as instituições é tão imediata que não há mais espaço para surpresas. O próprio governo adotou há dez anos a organização de discussão em escala para buscar soluções mais democráticas para suas políticas: conferências municipais, conferências estaduais, convergindo para uma conferência nacional, antes de virar uma proposta, projeto de lei, etc. Num governo tão democrático (pelo menos no discurso) porque anunciar a importação de médicos sem discutir isso com ninguém? Isso é estranho, para não dizer, suspeito.

No interior, existem ofertas de salários mais altos na tentativa de atrair os médicos brasileiros e eles resistem. O problema não é remuneração, é falta de estrutura. Só o atendimento ambulatorial, não resolve. Onde esses pacientes vão fazer os exames? Onde serão submetidos às cirurgias? Qual o nível de resolutividade que se oferece?

O governo precisa de um grande plano de estruturação da saúde no interior com bons hospitais, centros de especialidades. 

Por último, querem trazer médicos de fora sem respeitar as regras. Sem validação do diploma, com baixos salários e sem respeitar os dezesseis mil novos médicos que chegam ao mercado todo ano. Não é democrático, não é razoável. Só falta o Joaquim Barbosa dizer, também, que é inconstitucional.


Fonte : Otto Baptista – Vice-Presidente Federação Nacional dos Médicos (Fenam). 

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