Como nossos negros morrem (À memória de Alexystaine) - Ana Cláudia Laurindo


Alexystaine

Tratar sobre violência, para nós, não deve ser motivo de competitividade intelectual ou seja lá qual denominação se deseje. Pois o móvel desse fazer é a própria essência de cada um de nós, esmagada pelas mãos de um sistema que se mantém inabalado, enquanto engole filhos e filhas do amor mais sacrificado do qual se tem notícia, o de mãe. 

Falo como mãe de um lindo jovem negro alagoano, martirizado em nome da pseudo-verdade criada e mantida por segmentos estatais, no cozinhado brando de grosso caldo de injustiça social. Morto para comprovar as verdades do mundo mentiroso no qual transitamos, Alexystaine Laurindo cristalizou em seu olhar castanho todo sofrimento imposto às vítimas de violência.

Enquanto crescia como testemunha viva da tortura que Alagoas pratica, sua triste beleza incomodava os astutos executores da desdita. Esse menino que conheceu a frieza arbitrária de um camburão ao 12 anos de idade, precisava desviar a rota natural para carregar a carga de preconceito mortal que nossa sociedade inflige, com o aval do Estado.

Quem desejar conhecer os meandros dessa história, pode encontrar detalhes no livro “Bastidores da Violência (e dos violentos) em Alagoas”, escrito por mim em co-autoria com Odilon Rios. Aqui, enfatizo aspectos de sua história que foram manipulados em benefício da cultura de violência, no intuito de justificar sua morte aos 16 anos e desacreditar as denúncias registradas por mim, sua mãe, nas inservíveis instituições que atuam na manutenção do sistema violento que temos em vigor.

A tortura o traumatizou. O tratamento a esse tipo de vítima no Estado de Alagoas ainda é um desafio, pelos estreitos caminhos trilhados na formação dos nossos especialistas, que bebem o juízo de valor das tradições, não conseguindo ir além dos modelos de gente aprovados pelo senso comum. Lutamos, sem sucesso!

A escola não sabe ainda ir além das cartilhas seletivas que pautam as mesmas infelizes tradições. A desmotivação para o estudo foi algo agravante. O sistema pérfido logo apropriou-se desse fato para enquadrar Alexystaine na grande lista dos “desinteressados” quando na verdade, se tratava de um adolescente em luta para não ver desmoronar os próprios referenciais de gente. Seu grito não foi ouvido pela escola, mesmo com a participação de sua mãe professora e pesquisadora. A sentença era dada contra a sua causa.


De pele negra e tatuada, colocava-se como estereotipo exemplar para a construção criminosa da vítima dos nossos finais de semana letais. Assim foi o martírio do meu filho: meticuloso, ferino, assassino. Assim se desenrola a trama: Alagoas mata sem piedade. Criminaliza. Justifica o injustificável pelo aval irresponsável das conversas de salas e praças, que repetem: mais um…mas ele era errado…

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