Vice-presidente do CRM teria sido assassinado por vingança em razão da cassação de um registro médico



Em um novo capítulo de um dos crimes mais controversos na última década no Estado, o Ministério Público Federal (MPF) entendeu que o ex-andrologista Bayard Fischer e outras sete pessoas estão envolvidas na morte do ex-vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) Marco Antonio Becker. O caso é tratado em sigilo. A denúncia foi oferecida no final de abril, e o MPF e a Justiça Federal não se pronunciam sobre o assunto.

Sabe-se que o conjunto de denunciados é semelhante aos que respondiam pelo caso na Justiça Estadual. Apenas três pessoas foram excluídas da denúncia do MPF — uma que era acusada de participar do planejamento do crime, outra que respondia por falsidade ideológica e uma terceira por falso testemunho.

7 dez. 2008 ... Assassinato de vice-presidente do Cremers mobiliza polícia gaúcha. Motivo da execução do médico Marco Antonio Becker pode ser rixa ou ...
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A denúncia do MPF , anexada aos 30 volumes da ação penal — além de outros 80 maços de anexos — está sob análise da 2ª Vara Criminal Federal, que decidirá o futuro dos denunciados.

Durante quase três anos, o Caso Becker tramitou na Justiça Estadual. Bayard e outras 10 pessoas foram presas preventivamente por cerca de um ano e responderam a um processo na 1ª Vara do Júri da Capital. Em 2010, o advogado Marcos Vinicius Barrios — defensor de Moisés Gugel, ex-assistente de Bayard —, entrou com habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a alegação de que o Cremers representa o Conselho Federal de Medicina — o motivo do crime seria a cassação do diploma de Bayard. O STJ acolheu o pedido do advogado, anulou o processo na Justiça Estadual e mandou remeter o inquérito para manifestação do MPF.

O caso foi estudado por cerca de quatro meses pelo procurador da República Rodrigo Valdez de Oliveira. No final de abril, ele remeteu a denúncia para a Justiça Federal. Procurado por Zero Hora, o procurador evitou comentar o caso, assim como a Justiça Federal.

ENTENDA O CASO

— Na noite de 4 de dezembro de 2008, o oftalmologista e vice-presidente do Cremers Marco Antonio Becker é morto a tiros dentro de seu carro depois de ser abordado por dois homens em uma moto na Rua Ramiro Barcelos, no bairro Floresta, na Capital.

— Em 11 de dezembro de 2009, a Polícia Civil indicia o ex-andrologista Bayard Fischer dos Santos e mais quatro pessoas. Conforme as investigações, o traficante de drogas Juraci Oliveira da Silva, o Jura, teria intermediado o assassinato, e os executores seriam dois comparsas dele. Assistente de Bayard, Moisés Gugel é indiciado por ter trocado mensagens com Jura. 

— Becker teria sido assassinado por vingança, em razão da cassação do direito de Bayard de exercer a medicina.

— Em 22 de dezembro, o Ministério Público Estadual encaminha a denúncia à Justiça, aumentando de cinco para 11 o número de envolvidos — três pessoas que seriam ligadas aos executores do crime e outras três por falso testemunho. Uma semana depois, a Justiça aceita a denúncia contra Bayard e as outras 10 pessoas.

— Em 2 de agosto, começam os depoimentos da acusação no Caso Becker.

— Em 14 de abril de 2011, Bayard e outros cinco réus são soltos. O ex-andrologista estava preso desde fevereiro de 2010. O TJ mandou soltar o grupo sob argumento de que ficaram mais de um ano detidos, podendo responder pelo crime em liberdade. 

— Atendendo a pedido da defesa de um dos réus, em setembro de 2012, o STJ determina o cancelamento do processo na Justiça Estadual, ordenando que tramite na Justiça Federal, por entender que o Cremers representa o Conselho Federal de Medicina.

— Em janeiro de 2013, o processo chega para análise do Ministério Público Federal (MPF), que oferece denúncia contra Bayard e outras oito pessoas. 

— Desde maio, a denúncia está em análise na 2ª Vara Criminal Federal. Se for aceita, o processo será reiniciado. Caso contrário, o MPF poderá recorrer ao Tribunal Regional Federal.

OS DENUNCIADOS PELO MPF

— Bayard Olle Fischer Santos, 63 anos
Inimigo declarado da vítima por questões profissionais, o andrologista cassado teria interesse na morte de Becker após perder o registro profissional e supostamente seria o mandante do crime. Bayard sempre negou envolvimento com a morte de Becker. 
— Contraponto
O que diz o advogado João Olímpio de Souza Filho:
Vou me manifestar quando tiver conhecimento da denúncia.

— Juraci Oliveira da Silva, o Jura, 39 anos
Foi paciente de Bayard e teria intermediado o crime. É conhecido como líder de uma quadrilha de traficantes, na Capital. Está preso na Pasc, em Charqueadas, condenado a 50 anos e sete meses de cadeia (até 2054) por tráfico e homicídio.
— Contraponto
O que diz a advogada Ana Maria Castaman Walter:
Não tenho conhecimento da denúncia. Assim que tiver acesso a ela, vou me manifestar. Mas tenho certeza que meu cliente não tem envolvimento no crime.

— Anderson Roberto Farias Bones, o Kiko, 35 anos 
Integrante da quadrilha de Jura, seria a pessoa quem estava na carona da moto e desferiu os cinco tiros de pistola contra Becker. Cumpre pena no semiaberto por condenação de sete anos e seis meses (até 2017) por associação para o tráfico.
— Contraponto
O que diz o advogado Raccius Potter:
Não vamos nos manifestar. Vamos proferir manifestação nos autos do processo. 

— Michael Noroaldo Garcia Câmara, 30 anos, o Tocha
Teria dirigido a moto usada no assassinato de Becker. Está foragido, condenado a 23 anos de prisão (até 2028) por associação para o tráfico, tentativa de homicídio e porte ilegal de arma. 
— Contraponto
O advogado dele não foi localizado por Zero Hora.

— Moisés Gugel, 37 anos 
Ex-assistente de Bayard, teria trocado mensagens por celular com Jura. Teria participado do planejamento do crime. Gugel diz que as mensagens versavam sobre um tratamento médico.
— Contraponto
O que diz o advogado Marcos Vinícius Barrios:
Não me causa surpresa a denúncia, ainda que não conheça os termos. Um processo com tamanha repercussão não ficaria arquivado. Mas tenho absoluta certeza que no transcorrer do processo será comprovada a inocência do Moisés. 

— Jorge Roberto Gioscia Filho
Médico, especialista em angiologia, ginecologia e obstetrícia, trabalhou com Bayard. Seu crime seria de falso testemunho.
— Contraponto
O médico não foi localizado por Zero Hora, e o advogado dele evitou falar.

— Júlio Henrique Marques 
Pai de santo em Lajeado, era conhecido de Bayard. Seu crime seria de falso testemunho.
— Contraponto
Marques e os advogados do pai de santo não foram localizados pela reportagem.

— Paulo Ricardo Machado, Paulinho Ferramenta
Suspeito de integrar a quadrilha de Jura, teria trocado mensagens via celular com Jura no dia do crime, participando do planejamento da morte de Becker. 
— Contraponto
O que diz a advogada Ana Maria Castaman Walter:
Não tenho conhecimento da denúncia. Assim que tiver acesso a ela vou, me manifestar. Mas tenho certeza que meu cliente não tem envolvimento no crime.


FONTE:
MPF denuncia oito pessoas à Justiça Federal por morte de médico na Capital
Procurador entendeu que o ex-andrologista Bayard Fischer está entre os envolvidas no crime
José Luís Costa
joseluis.costa@zerohora.com.br

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