Os cossacos de Fidel Castro : A sangrenta tirania cubana em Angola



NELSON PESTANA


Os cossacos de Fidel Castro


Especialista em literatura africana de língua portuguesa, o escritor e cientista político angolano Nelson Pestana — que teve influência do PC do B — conta como foi a invasão de Cuba em Angola e afirma que a ditadura cubana torturava os angolanos


O ditador cubano Raul Castro — irmão de Fidel Castro — estará em Salvador, nos dias 26 e 27 de dezembro deste ano, participando de uma cúpula de países latino-americanos, quando será recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A esquerda brasileira, que vive falando em direitos humanos, não se importa com os crimes contra a humanidade praticados por Fidel e Raul, ao longo de uma das mais duradoras tiranias da história mundial. Pelo contrário, para os esquerdistas brasileiros de ontem e de hoje, — incluindo o pedagogo Paulo Freire, o sociólogo Emir Sader e Frei Betto, — Cuba é a Meca do socialismo e Che Guevara é seu profeta. O sociólogo Emir Sader chegou a confessar, no seu Blog do Emir, que fica sem palavras diante da grandeza "cósmica" de Che.

Graças a esses serviçais ideológicos de Fidel Castro (todos eles bem posicionados na imprensa e na academia), a Revolução Cubana é uma das mentiras com pernas mais longas de toda a história da humanidade. Prova disso é o mito de que os cubanos foram libertadores de Angola — mentira propagada até em livros didáticos. Os cubanos não foram libertadores, mas predadores de Angola. E quem diz isso não é nenhum adversário ideológico das esquerdas, mas um membro delas — o escritor e cientista político angolano Nelson Pestana, que assina sua obra poética com o pseudônimo de E. Bonavena.


Há cinco anos, em 11 de novembro de 2003, Nelson Pestana esteve em Goiânia, quando proferiu palestra sobre literatura africana na Universidade Católica de Goiás e concedeu entrevista ao Jornal Opção, em que fala mais de política do que de literatura. Nelson Pestana conta como o exército de Fidel Castro saqueou Angola, promoveu a tortura de presos políticos — inclusive ele próprio — e chegou a estuprar mulheres. Segundo ele, até que Angola tivesse sua própria equipe de torturadores, os cubanos é que se encarregavam de torturar os opositores do regime.

Nelson Eduardo Guerra Pestana nasceu em 26 de fevereiro de 1955, no bairro suburbano do Cazenga, em Luanda. Graduado em direito pela Universidade Agostinho Neto, de Luanda, doutorou-se em ciências políticas pela Universidade de Montpellier, na França. Literariamente adotou o pseudônimo de E. Bonavena, com o qual publicou seus dois livros de poesia: Ulcerado de Míngua Luz (1985) e Limites da Luz (2003). Filho de angolanos e neto de portugueses com angolanas, ele reside, atualmente, em Lisboa, onde trabalha no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Emprego, desenvolvendo projetos de pesquisa sobre os países lusófonos da África.


País lusófono da África, Angola viveu uma sangrenta guerra civil que teve início na década de 60, com os movimentos guerrilheiros que lutavam para que o país se tornasse independente de Portugal. O MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola) e a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola), os principais grupos armados do país. Em 1975, o país conquistou a independência, tendo como primeiro presidente o poeta Agostinho Neto, líder do MPLA. Desde o início, os angolanos poderiam fazer deles o verso de Camões: "Braço às armas feito, mente às musas dada". Em meio à guerra anticolonial, desenvolveu-se um fértil movimento literário, que daria à literatura de língua portuguesa no mundo escritores como Pepetela.


Esta entrevista foi concedida em 11 de novembro de 2003, no Núcleo de Estudos Lingüísticos da Universidade Católica de Goiás e contou com a participação do professor e escritor Goiamérico Felício, um dos organizadores do seminário sobre literatura africana que contou com a participação de Nelson Pestana. Como a ditadura cubana continua ativa e o governo Lula insiste em apoiá-la, a entrevista de Nelson Pestana — que teve influência do PC do B em Angola — continua muito atual. Vale a pena conferir.

"Agostinho Neto era profundamente antidemocrata, autoritário, um autocrata politicamente, mas era um humanista como poeta. De tal maneira que, tendo eu estado na cadeia, nós fazíamos a denúncia do presidente valendo-nos do poeta"


José Maria e Silva — Apesar de formado em direito e graduado em ciência política, o sr. também se dedica à literatura, tanto que sua palestra na Universidade Católica de Goiás foi sobre a literatura africana de língua portuguesa. Quais são os seus atuais trabalhos na área?

Nelson Pestana — Trabalho, basicamente, com a literatura de Angola, embora tenha um conhecimento mediano de outras literaturas de língua portuguesa, como as literaturas de Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Tenho escrito bastante sobre a história da literatura angolana, nomeadamente sobre a história da literatura angolana do século XIX. Tenho dois livros de poesia publicados, Ulcerado de Míngua Luz, de 1985, e Os Limites da Luz, que foi publicado neste ano de 2003. Também publiquei ensaios como Literatura e Nacionalismo em Angola. Atualmente, vivo em Lisboa, trabalhando no Centro de Estudos Africanos do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Emprego. Depois de ter acabado o meu doutorado em França, liguei-me a um projeto de investigação sobre as transformações no espaço político dos países africanos de língua portuguesa. Esse projeto está a terminar dentro de seis meses, com a publicação de um livro. Cada país será estudado num capítulo. Vou escrever o capítulo relacionado com Angola. Somos cinco pesquisadores e cada um trabalha sobre o seu respectivo país.

José Maria e Silva — Como está a situação de Angola, depois da morte do guerrilheiro Jonas Savimbi, o líder da Unita?

Nelson Pestana — Com a morte do Jonas Savimbi, foi possível estabelecer a paz. Hoje, não há guerra no país, com a exceção da província de Cabinda, onde há movimentos autonomistas que reivindicam a independência da região. A Unita, efetivamente, renunciou à via armada para chegar ao poder. Ela tem a sua direção em Luanda e integrou-se, com o seu grupo parlamentar, na Assembléia Nacional. Porém, a guerra sempre foi utilizada pelos dois lados como instrumento de poder. Por um lado, era instrumento de poder de Jonas Savimbi, que queria chegar ao comando do Estado através das armas; por outro, também era um instrumento de poder do presidente da República, José Eduardo dos Santos, para se fechar à sociedade e não permitir uma verdadeira democratização do país. A paz é uma conquista indiscutível, porém, as expectativas têm sido goradas. Pensávamos que, com o fim da guerra, o regime se iria abrir à sociedade, permitindo a livre concorrência no espaço político, a pluralidade que está consagrada na Constituição. Mas não é o que tem acontecido.

No domínio econômico, a guerra também serviu como instrumento para permitir a apropriação da riqueza nacional por uma elite muito restrita, ligada ao poder, que organizou, contra a própria ordem formal estabelecida, uma espécie de neomercantilismo e até uma depredação organizada da riqueza nacional. Eles instituíram-se como burguesia, mas uma burguesia que não produz, que não trabalha, que não organiza a produção de riqueza, apenas se preocupa com a apropriação dessa riqueza. Costumo dizer que se trata, efetivamente, de uma lumpemburguesia e não, propriamente, de uma burguesia. Essa lupemburguesia que está no poder não quer que o país adote uma economia liberal, regida pelas leis de mercado, e continua a impor uma economia na base do monopólio. Por um lado, um monopólio estatal, continuando a economia socialista do partido único, e, por outro, um monopólio dos próprios titulares do poder. É o que eu chamo de monopólio de Jano — o monstro de duas cabeças.

Tomemos como exemplo as comunicações em Angola. Há uma empresa estatal, que investe naquilo que é mais oneroso e menos rentável, que são os telefones fixos, e, por outro lado, há uma empresa que é da filha do presidente da República, quer dizer, do próprio presidente da República, que tem o monopólio dos celulares, que é muito mais rentável e exige muito menos investimentos. Isso se repete em vários setores da vida nacional. É isso o que chamo de neomercantilismo. A economia está subordinada aos interesses do príncipe: não há concorrência, não há liberdade de empreendimento. Todos aqueles que querem empreender têm que, necessariamente, passar pelo príncipe ou pelos que apóiam o príncipe. Do ponto de vista social, é um descalabro. A pobreza agravou-se. A própria guerra era um fator de agravamento da pobreza. Hoje, cerca de 70 por cento da população de Angola vive abaixo da linha de pobreza, com menos 1 dólar de rendimento diário. E não há um pensamento estratégico nacional para tirar o país da situação em que está.

"Li muitos jornais do PC do B, que eram editados clandestinamente aqui no Brasil e apareciam também clandestinamente em Angola. Eu fazia parte, nesta altura, de um comitê que defendia a democratização do país como uma etapa para o socialismo."


José Maria e Silva — No Brasil, sempre se ficou do lado do MPLA, o Movimento Popular pela Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto, e se demonizou a Unita e seu líder Jonas Savimbi. Como o sr. vê essa dicotomia? A Unita era mesmo um demônio?

Nelson Pestana — Era um demônio, indiscutivelmente. Mas a Unita não era só um demônio, assim como o MPLA também é outro demônio, mas não é só um demônio. Há sempre essa dualidade, essa dialética, em relação aos movimentos de libertação nacional. Eles representam os angolanos e aspirações de angolanos. Mas essas aspirações são normalmente apropriadas pelas elites dirigentes para fazerem a sua própria política e defender seus próprios interesses. Por isso, a grande dificuldade para se chegar a um entendimento entre Unita e MPLA. Mas, a partir de 90, sob a pressão internacional e sobre a pressão interna, quer militar, quer econômica, eles foram levados à negociação. Mas negociam a dois, numa perspectiva da continuação da guerra por outros meios. Clausewitz [Karl von Clausewitz, 1780-1831, general e teórico militar, autor do tratado Da Guerra] falava na guerra como continuação da política por outros meios. O MPLA e a Unita inverteram essa máxima: fizeram da política uma continuação da guerra por outros meios. Então, quando há o chamado processo de transição, eles estabelecem uma ordem bipartidária, a dois, e não aceitam a democratização do país. Sempre que outras forças emergentes tentavam abrir espaços no país, os dois, por mais paradoxal que pareça, apareciam juntos para fechar o espaço político. A lógica era: fechando o espaço político, aquele de nós que derrotar o outro toma o poder e herda a tradição totalitária que inauguramos.

Goiamérico Felício, doutor em teoria da literatura pela UFRJ e professor do Departamento de Letras da UCG e da Faculdade de Comunicação da UFG — Eu gostaria de saber a respeito dos intelectuais. Eles foram cooptados como a maioria dos intelectuais brasileiros, que se alinharam ao sistema, ou se mantiveram na trincheira de resistência? A literatura deles expressa ideologicamente esse impasse entre a sociedade e o Estado?

Nelson Pestana — Os intelectuais, na maior parte, acomodaram-se à situação. Durante muito tempo, foram intelectuais engajados, acreditaram numa utopia, no projeto social que o MPLA defendia, mas, a partir de uma determinada altura, começaram a entrar numa "dissidência não-declarada" como eles a chamam. E é através da literatura que essa dissidência não-declarada se expressa. Embora, no plano político eles continuassem, muitas vezes, a agir contra aquilo que eles próprios defendiam. Porque criaram laços, dependências, relações, afetividades que os amarrava a uma idéia mítica de Revolução. Por isso, muitos deles deixaram de ser intelectuais orgânicos, mas não assumiram a vanguarda da crítica desses comportamentos. Outros recorreram principalmente à literatura, como um instrumento de apropriação da história, para manifestar essa dissidência não-declarada.

Goiamérico Felício — E essa literatura engajada não perdeu qualidade em termos éticos e poéticos?


Nelson Pestana — Durante algum tempo, a literatura engajada perdeu qualidade. Mas há, também, a literatura engajada com os princípios da vida, com os princípios da liberdade, que é uma literatura boa, tanto do ponto de vista do posicionamento filosófico quanto do ponto de vista estético.

José Maria e Silva — Que autores o sr. citaria como exemplo dessa literatura engajada com os princípios da vida e que não perdeu qualidade?

Nelson Pestana — O Rui Duarte de Carvalho [português de Santarém, onde nasceu em 1941, mas radicado em Angola desde 1963] e o próprio Pepetela [pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana, também guerrilheiro do MPLA, nascido em 1941 e Prêmio Camões de 1997. Mas também citaria um escritor da minha geração, o José Eduardo Agualusa [nascido em 1960 e autor, entre outros livros, de Nação Crioula, romance, publicado em 1997.

José Maria e Silva — E o poeta-presidente Agostinho Neto [1922-1979, autor de Sagrada Esperança], que foi líder do MPLA e primeiro presidente do país?

Nelson Pestana — O poeta-presidente eu sempre o apreciei de duas maneiras: nunca gostei nada do político, gostei sempre muito do poeta. E ele era isso: era uma contradição nos próprios termos. Era um indivíduo profundamente antidemocrata, um autoritário, um autocrata politicamente, mas era um humanista como poeta. De tal maneira que, tendo eu estado na cadeia, nós fazíamos a denúncia do presidente valendo-nos do poeta.

"Antes de Angola ter sua própria repressão, os cubanos é que torturavam os angolanos. Muitos carros que circulavam em Havana eram carros roubados em Angola. Foram roubadas até fábricas. Eram desmontadas, postas em barcos e levadas para Cuba, assim como clínicas e hospitais"

José Maria e Silva — O sr. esteve preso?

Nelson Pestana — Estive preso por dois anos e meio, acusado de militância numa organização clandestina, subversiva.

José Maria e Silva — Qual era a ideologia dessa organização?


Nelson Pestana — Havia uma corrente que se chamava Movimento Revolucionário Angolano para designar todos aqueles que, sendo de esquerda, eram contra o MPLA. Esse movimento era muito heterogêneo. Dele faziam parte, por exemplo, os militantes da Organização Comunista de Angola, todos marxistas-leninistas de feição albanesa, discípulos de Enver Hodja [ditador da Albânia de 1946 a 1985] e que se ligavam, aqui no Brasil, ao PC do B. Li muitos jornais do PC do B, que eram editados clandestinamente aqui no Brasil e apareciam também clandestinamente em Angola. Mas havia também correntes liberalizantes e democráticas como a Revolta Ativa. Eu fazia parte, nesta altura, de um comitê que defendia a democratização do país como uma etapa para o socialismo. Claro que, depois, houve um repensar dessa posição. Mas o mais importante, no caso da minha corrente, é que ela considerava que os movimentos de libertação eram todos autoritários e defendia que não era possível a construção do socialismo na base da repressão das individualidades. Ela defendia um socialismo respeitador da individualidade, ao contrário do socialismo defendido pelo regime, que era totalitário.

José Maria e Silva — E as prisões lá, foram muito violentas? Houve torturas?

Nelson Pestana — Extremamente violentas, com pau-de-arara e outras coisas mais. Basta olhar para mim [aponta o braço]: as marcas continuam aqui no corpo, estão inscritas na carne. Depois de solto, continuei em Angola. E não podendo investir no político, porque estava, digamos assim, indexado, investi no cultural. Criamos um movimento cultural, chamado Projeto Kixímbula, que se notabilizou, sobretudo, por uma intervenção na literatura, criando uma revista alternativa ao pensamento único da literatura, que se chamou Archote.

José Maria e Silva — E essa revista enfrentava algum tipo de censura?

Nelson Pestana — Sim, enfrentava, mas nós, apesar disso, continuamos a publicá-la. Dizíamos que, se fosse necessário voltar à cadeia por causa disso, voltaríamos.

Goiamérico Felício — A literatura, então, funcionou como uma arma de resistência à repressão política?

Nelson Pestana — Exatamente. Inclusive, recuperando um pouco a tradição da literatura anticolonial, na qual, muitos dos que estavam no poder agora, tinham militado no passado. E tivemos o apoio de António Jacinto [escritor, membro do MPLA e ex-ministro da Educação e Cultura de Angola, nascido em 1924], que, apesar de ser dirigente do partido único nessa altura, viu no nosso movimento uma coisa muito importante para a liberdade de expressão e para a humanização da ditadura revolucionária.

José Maria e Silva — Fidel Castro apoiou a MPLA e enviou tropas para Angola, que ajudaram o governo no combate à guerrilha. Qual o papel de Cuba em Angola?

Nelson Pestana — Do meu ponto de vista foi um papel de potência de segundo grau e de colonização. Os cubanos representaram um mercenarismo de Estado. Da mesma maneira que houve a intervenção de outros exércitos, como o sul-africano e o zairense, por parte dos outros movimentos de libertação, Cuba interveio para apoiar o MPLA. E interveio como força expedicionária que se apropriou da riqueza nacional, inclusive porque os cubanos, a uma determinada altura, mandavam no país. Os angolanos eram marionetes nas mãos dos cubanos. O poder angolano de Agostinho Neto dependia da força expedicionária cubana. Tanto é assim que, quando houve uma cisão dentro do MPLA e há um golpe de Estado em 27 de maio de 1977, esse golpe é controlado pelos cubanos, que estão do lado de Neto. São os cubanos que reprimem a tentativa de golpe de estado dessa corrente do MPLA, que era comandada por Nito Alves e que tinha o apoio da União Soviética. Os cubanos tinham interesses próprios, como potência regional de segunda ordem, e, nesse caso, ficaram em lado oposto aos soviéticos.


A intervenção em Angola trazia um desafogo para a própria economia cubana. O internacionalismo é discurso de propaganda. Os cubanos eram pagos e bem pagos, inclusive os soldados, não era só o pessoal civil que era pago. Lembra-me que, numa determinada altura, cada soldado cubano custava mil dólares para Angola, por mês. Era uma fatura muito elevada. O internacionalismo era apenas um discurso de legitimação. Essas quantias em dólares pagas aos cubanos deram um desafogo à economia de Cuba, que estava extremamente estrangulada na altura em que eles fizeram a intervenção em Angola. Daí os interesses diferentes de cubanos e soviéticos. Cuba apoiou Neto porque ele dava maior garantia aos cubanos de permanência no país. Cuba chegou a ter 60 mil pessoas em Angola, entre soldados e civis. Não eram os angolanos que diziam: "Agora, precisamos de 20 médicos". Cuba que mandava 30 médicos. Angola tinha que os aceitar e lhes pagar os salários, além de comprar todo o material que era operado pelos cubanos. Inclusive, antes de Angola estruturar sua própria força repressiva, os cubanos é que torturavam diretamente os angolanos.

Os cubanos são idolatrados como internacionalistas, sei que na América Latina eles têm essa imagem, mas, pelo lado da população angolana, eles são vistos como força de intervenção. Eles tiveram as práticas de todas as forças de intervenção, como violação de mulheres, apropriação de fábricas completas. Os cubanos, normalmente, eram os primeiros que chegavam às cidades desertadas pelas forças sul-africanas e de outros movimentos de libertação. Então, os cubanos se apropriavam de tudo aquilo que lhes interessava. Conta-se, inclusive, uma anedota, que acho que tem a ver com a realidade, que, numa primeira viagem de Estado que Agostinho Neto fez a Cuba, ele levou vários ministros, entre eles o ministro da Justiça, que teve a surpresa de ver, em Havana, o carro que lhe tinha sido roubado em Havana. Muitos carros circulavam em Havana com a matrícula "MP", que significava "matrícula pedida". Eram carros roubados em Angola, levados para Cuba e, depois, matriculados com uma nova chapa cubana. Mas não foram só carros. Foram roubadas até fábricas. Eram desmontadas as fábricas, postas em barcos e levadas para Cuba, assim como clínicas e hospitais.

José Maria e Silva — A visão que se tem da intervenção de Cuba em Angola, aqui na América Latina, é a de uma intervenção libertadora. Depois de feita a Revolução em Cuba, os cubanos, idealistas, teriam lutado para libertar Angola. Mas a angolana Filomena Carreira, que se mudou para o Brasil, conta, em livro, que os cubanos, quando deixaram Angola, arrancaram até partes valiosas de monumentos históricos. O sr. confirma essa história?

Nelson Pestana — Confirmo, claro. Os cubanos fizeram uma depredação histórica em Angola, não só porque arrancavam coisas para levar para Cuba, mas também porque quebraram monumentos, alegando que eram alusivos ao colono. E a depredação dos cubanos não foi só na retirada deles, mas assim que chegaram. Era uma depredação organizada. Por exemplo, em Cabinda, que é uma região de floresta, que tem madeiras preciosas, eles cortavam a madeira, punham nos barcos e levavam, simplesmente não pagavam impostos, não pagavam a madeira, não pagavam nada. Faziam uma exploração da madeira, por conta própria, sem qualquer autorização ou acordo entre Cuba e Angola. Os cubanos destruíram a produção de cana-de-açúcar em Angola. Os cubanos comandaram, durante muito tempo, a marinha mercante angolana, e fretavam barcos para servirem à sua própria marinha mercante. E nós pagávamos frete de barcos cubanos que serviam à sua marinha mercante.


Eles fizeram imensas coisas. Há coisas que já estão sendo mais ou menos relatadas por cubanos dissidentes. De qualquer maneira, os cubanos não saíram totalmente de Angola. Saíram as tropas. Muitos deles converteram-se em negociantes e continuam em Angola, com lojas de comércio externo, clínicas, entre outros negócios. Alguns deles são uma força de reserva do próprio regime, porque um general que vira comerciante é sempre general. Há bem pouco tempo, o presidente angolano José Eduardo dos Santos visitou Cuba para um novo incremento da colaboração militar com Cuba. Apesar dos pesares, não temos uma atitude revanchista em relação aos cubanos. Naquilo que eles forem interessantes para Angola, conversamos muito bem, pode haver colaboração com Cuba.

Deixe me dizer que conheci Cuba, em 1981, e o que mais me chocou em Cuba foi o racismo contra os negros, pior do que no Brasil, mas como é uma revolução socialista, fala-se muito de Guevara, esconde-se muito isso. A guerra em África, tanto em Angola como na Etiópia, serviu, também, um bocado à comunidade negra cubana para a sua afirmação, para a sua promoção social, porque não se viam generais negros no Exercito cubano. Passou a haver numa determinada altura, porque a intervenção em África fez com que o discurso de Fidel incidisse sobre a recuperação das raízes africanas cubanas e isso motivou certa promoção da comunidade negra cubana. Há muito tempo que não vou a Cuba, mas, em 1981, quando estive lá, havia um racismo declarado em Cuba, a ponto de um branco não dançar com uma negra. E de eu me interessar por uma mulher que, nas circunstâncias, era negra e ela perguntar-me se eu efetivamente gostava dela, porque achava que um indivíduo com a minha pigmentação não poderia se interessar, de maneira nenhuma, por uma mulher de pele escura. Porque em Cuba havia essa separação, a separação das raças. Eu tinha companheiros cubanos desportistas que não dançavam num baile com brancas, porque se fossem pedir para dançar, elas não aceitavam porque eles eram negros. É um racismo que se pode encontrar mesmo nos textos do José Martí, quando ele fala no nosso "irmão mais novo", o negro, numa atitude paternalista, que é, também, uma forma de racismo.

"Costumo dizer aos meus amigos brasileiros, alguns com militância no PT, que Fidel, moralmente, está uns pontos abaixo de Pinochet. Pinochet era um ditador, mas pôs a sua cadeira à disposição de um referendo. Fidel nunca o fez e continua a manter uma ditadura das mais retrógradas"

Goiamérico Felício — Suas revelações acerca de Cuba expõem as contradições desse governo do PT, que tem em Fidel Castro um Deus, um ser digno de todas as vênias. Haja vista que, quando a delegação do PT chegou em Cuba, José Dirceu chorou, copiosamente, nos ombros de Fidel Castro. E Fidel é recebido aqui com as honras que nenhum chefe-de-estado mereceu até hoje. O PT não está fazendo vistas grossas a esses malefícios cubanos?

Acho que sim. Costumo dizer aos meus amigos brasileiros, alguns com militância no PT, que Fidel Castro, moralmente, está uns pontos abaixo de Pinochet. Porque Pinochet era um ditador, mas, hoje, pôs a sua cadeira à disposição de um referendo. Fidel Castro, apesar de ter sido aconselhado a fazer o mesmo, até para renovar a sua legitimidade, nunca o fez e continua a manter uma ditadura das mais retrógradas. Mas eu costumo dizer aos meus amigos brasileiros que o nosso ditador é sempre mais simpático que o ditador do outro. O Pinochet era o ditador da direita e, por isso, é aquela besta que reprimiu a república, que matou Allende. Sabemos disso e tenho muito respeito por essa resistência, mas eu vi um resistente do Chile a ir buscar o Pinochet em Londres, para que ele não fosse julgado por Baltazar Garzón. E ele explicava que a democracia tinha sido negociada com esse ditador, que decidiu renunciar ao poder porque perdeu um referendo.

Não tenho simpatia nenhuma por nenhum tipo de ditador, mas, como homem de esquerda, embora de uma esquerda democrática, que não aceita nenhuma forma de coação sobre as liberdades individuais e coletivas, não posso me identificar com um ditador como Fidel Castro. Eu me identifico mais com aqueles a quem ele chama de vendilhões da pátria, que são esses movimentos da sociedade civil que apenas têm a fragilidade de seus corpos para opor ao regime brutal de Fidel Castro. E é um regime verdadeiramente brutal. Não é por acaso que alguns intelectuais de esquerda que até há pouco tempo o apoiavam cortaram relações com ele. O último caso foi o do escritor José Saramago, que escreveu aquela célebre carta aberta.

Conheci Cuba e não vi as grandes conquistas do socialismo que eles vendem. Mas, mesmo que houvesse essas grandes conquistas do socialismo, nada justifica a opressão sobre as pessoas. Não é por um prato de arroz que um ditador qualquer tem direito a impor uma ditadura como a de Fidel Castro. Por isso, acho que o PT teria muito a ganhar demarcando-se desse tipo de ditadura, a não ser que ele concorde com uma política de dois pesos e duas medidas: por um lado, o PT que fez um percurso de 20 anos de luta e chegou ao poder pela legitimidade do voto popular; por outro, o PT que apóia Fidel Castro, um dinossauro que não tem legitimidade nenhuma.

Fidel não aceita pôr o seu poder ao referendo da população cubana, porque acha que isso é invenção do ianque. Mas não é. Ele pode organizar as manifestações que quiser, com a população que quiser, para dizer que aqueles ativistas cívicos cubanos que lutam pela liberdade do país não representam ninguém. Mas Ceaucescu, na Romênia, também tinha eleições com 90 por cento de aprovação, mas, de um dia para o outro, caiu e nós depois vimos o que era efetivamente esse poder. No Iraque, Saddam ganhou as últimas eleições que fez com 100 por cento dos votos, mas hoje vemos que as manifestações no Iraque contra a potência ocupante mostram uma pluralidade de movimentos e não 100 por cento em favor do ditador que foi derrubado pela intervenção americana. Fidel não tem, com certeza, 100 por cento da população do seu lado. Mas bastava que houvesse um cubano que pensasse diferente do Fidel para que ele tivesse o direito de pensar diferente.

Voltando ao PT, eu acho que há uma corrente no partido que, efetivamente, não aceita a democracia como modelo a seguir, que se submeteu a ela, nas circunstâncias do Brasil, e que, por isso, poderá ser sempre um risco para a própria democracia brasileira. E eu, não sendo brasileiro, sendo angolano, digo isso com preocupação, porque é normalmente nesses modelos ditatoriais que os nossos ditadores se inspiram. E, por isso, o exemplo brasileiro, nesse capítulo, pode ser um mau exemplo para Angola. E, como tal, eu tenho que me bater para que a própria democracia brasileira se fortaleça e se desenvolva naquele caminho que todos nós desejamos.

"Os cubanos fizeram uma depredação histórica em Angola. Eles quebravam monumentos, alegando que eram alusivos ao colonizador, extraíam madeira preciosa de Cabinda e levavam para Cuba e destruíram a produção de cana-de-açúcar em Angola"

José Maria e Silva — Muitos africanos enfrentam problema na educação em face das centenas de dialetos tribais que concorrem com a língua herdada do colonizador. Em Angola esse problema é menor?


Nelson Pestana — A língua portuguesa tem um estatuto muito maior em Angola. Ela penetrou a partir do século XV, primeiro no Reino do Congo, depois na colônia de Angola. Ao longo do desenvolvimento colonial e da integração dos vários povos que vão depois dar Angola, o português é a língua de promoção social e está em vantagem em relação às outras demais línguas. O mosaico lingüístico angolano, hoje, se compõe de cerca de 125 línguas africanas. No entanto, elas podem ser reduzidas a nove grandes grupos lingüísticos, bantos, e mais dois que não são bantos. Depois disso, temos o português, que é a língua materna de uma quantidade considerável de angolanos. Segundo as últimas estatísticas as pessoas falantes de português, só português, constituem o segundo maior grupo lingüístico angolano. O primeiro é o umbundo e o terceiro, o quimbundo. Mas aqueles que têm a língua materna umbundo ou o quimbundo também falam português, em grande parte. Se pensarmos no universo de falantes do português em Angola, ele é absolutamente maior do que os outros, por razões históricas. O português era a língua de promoção social durante a colonização e, hoje, depois da independência, continua tendo esse papel, além de ser a língua da literatura escrita, da administração e da política. E a tendência é as gerações mais jovens falarem só o português, embora seja um português mestiçado. Há palavras que são tomadas como genuinamente portuguesas, mas, quando vamos tomar as origens etimológicas, vemos que elas vêm do quimbundo ou de outras línguas de Angola. Vou dar um exemplo: quizilha, uma palavra muito portuguesa, que significa contenda, vem de pigila, do quimbundo, que quer dizer interdição.

Goiamérico Felício — O que significa que o processo de colonização portuguesa se efetivou na medida em que o povo angolano não resistiu, buscando as línguas pré-existentes à colonização

Nelson Pestana — A grande dificuldade é que o partido único instalou um poder extremamente jacobino, com um centro muito forte, tudo tinha que passar pelo centro. Pensaram até na substituição do português por uma espécie de servo-croata, com duas línguas africanas, o quimbundo e o umbundo. Mas abandonaram esse projeto, até porque, durante todo o tempo em que discutiam essa problemática lingüística, essa discussão era feita toda ela em português. E se o projeto fosse aprovado, o próprio presidente da República teria que aprender a nova língua oficial, porque ele só falava português, com uns laivos de quimbundo.

Goiamérico Felício — Na conferencia de hoje o sr. nos deu uma aula de história da literatura angolana, ao mesmo tempo em que desenvolve pesquisas na área de sociologia. Eu também estou no limiar da literatura e da comunicação. O senhor se sente angustiado com isso? A sociologia não pode ofuscar uma crítica que não passe pela sociologia da literatura?

Nelson Pestana — Essa é uma pergunta difícil de responder. Angustiado, acho que não. Mas, por vezes, penso que a minha grande vocação é a literatura. Mas fui fazendo a minha formação pelo próprio desenvolvimento histórico nacional. Quando tinha 18 anos, o meu sonho era ser agrônomo e namorava uma menina que tinha entrado na faculdade de medicina e tinha o sonho de ser médica. O nosso sonho era casarmos, irmos para o interior, montarmos uma cooperativa com os agricultores da região e ela faria medicina social. Ela acabou sendo historiadora e eu acabei fazendo direito. Com o meu engajamento político, achei que o direito era mais importante. Fiz direito e, ao mesmo tempo, tinha esse engajamento com a literatura. Fazia pesquisas por conta própria, passava horas e horas na Biblioteca Nacional e na Biblioteca da Câmara Municipal de Luanda, que corresponde à prefeitura daqui, e tem um acervo muito importante de jornais do século XIX. Pus-me a ler e a estudar pacientemente esses jornais e, consoante ia lendo e tomando contacto com historiadores da literatura angolana consagrados, surpreendia-me com coisas que estavam ditas e que não correspondiam com a realidade. Eu dizia: "Esse homem diz isso sem ter lido o jornal a que ele se refere". E alguns desses erros se tornavam lugares-comuns. Uma vez terminado o curso de direito, fui trabalhar, mas continuei a pesquisar na União dos Escritores Angolanos. Tínhamos muitos debates. Vinham escritores da Rússia e, como sou um apaixonado por Dostoiévski, não perdia uma palestra sobre literatura russa. Aproveitávamos tudo. A literatura era a minha verdadeira paixão. Durante meu doutorado na França, aproveitei para aprofundar meus conhecimentos de literatura. Freqüentei duas faculdades, a de direito, onde fiz minha pós-graduação, e, como ouvinte livre, a Faculdade de Letras, onde me aprofundei em literatura. Gosto muito de um poeta congolês de expressão francesa, Tansi [Sony Labou Tansi, 1947-1995, dramaturgo, poeta e novelista zairense], que viveu muitos anos em Paris e tem uma poesia maravilhosa. Tenho essa profissão, sou um pesquisador na área da sociologia política, pretendo continuar fazendo uma carreira acadêmica nessa área, mas também sinto vontade de participar na formação de novos quadros angolanos na área das letras.

"O partido único instalou um poder extremamente jacobino em Angola. Pensaram até na substituição do português por uma espécie de servo-croata, com duas línguas africanas, o quimbundo e o umbundo. Mas abandonaram esse projeto, porque o próprio presidente teria que aprender a nova língua"

José Maria e Silva — Qual a visão dos angolanos em relação à cultura portuguesa?


Nelson Pestana — Há um certo movimento em Angola de retorno às origens. Mas não há propriamente uma recusa absoluta dessa componente universal, que não é a cultura portuguesa necessariamente, mas é aquilo que nos une a todos enquanto humanidade — a cultura universal que nós sempre defendemos. Sempre dissemos, claramente, que era preciso nos apropriarmos de tudo o que houvesse de bom no mundo e dar a isso uma cor local. Acho que há um aspecto do conhecimento que é patrimônio da humanidade. O Ocidente tem o monopólio da enunciação porque é uma potência, e não só porque conquistou pela força esse monopólio, mas porque sabe buscar os empréstimos das outras culturas e passado algum tempo começa a apresentar aquilo com qualquer coisa de original seu. E muitas vezes, nós, nas periferias, desenvolvemos um complexo em relação a isso, quando deveríamos ter uma atitude sem complexos, afirmando as nossas identidades e nos apropriando de tudo o que nos possa servir, dando-lhe a cor local.

Goiamérico Felício — A literatura angolana e a literatura africana de um modo geral têm boa recepção em Portugal ou sofrem algum tipo de preconceito

Nelson Pestana — Não creio que haja um preconceito por parte dos portugueses em relação à literatura angolana. Temos esse patrimônio que é a língua portuguesa e já dissemos várias vezes aos portugueses que eles não são donos da língua. Acho que, hoje, com várias exceções, nenhum português pensa assim. A língua é patrimônio comum de todos nós que a falamos. Os brasileiros seriam muito mais donos da língua porque são 170 milhões de pessoas. Cada um vive a língua à sua maneira. A verdade é que esse patrimônio comum facilita a comunicação e os escritores angolanos são lidos em Portugal. Há uma certa diáspora angolana em Portugal que se interessa por essa literatura. E há um público culto português que também se interessa pela literatura angolana. Mas varia de autor para autor. Há autores que têm mais penetração que outro, como Pepetela, Agualusa e Mia Couto, de Moçambique. Muitos professores de língua portuguesa adotam autores angolanos em suas aulas, ainda que não seja um grande mercado.

José Maria e Silva — Há racismo em Angola?

Nelson Pestana — Há. Um racismo residual de brancos em relação ao negros e dos negros em relação aos brancos. Digo residual porque o poder já não é branco, mas negro. Mas também se sente um racismo que nada tem a ver com a raça mas com o social. Brancos, mestiços e negros de condição social superior têm certa discriminação em relação aos pobres.

José Maria e Silva — O que o sr. aprecia na literatura brasileira?

Nelson Pestana — Conheço alguma coisa. A literatura é muito vasta. Sou um fã de Graciliano Ramos, li muito essa geração do modernismo brasileiro, o realismo social, mas também os poetas, alguns mais recentes. Gostei, por exemplo, de João Cabral de Mello Neto.

Goiamérico Felício — É o nosso maior poeta.

Nelson Pestana — Não é o Carlos Drummond de Andrade, não?

Goiamérico Felício — A poesia de Drummond sofreu muito com o engajamento social, enquanto João Cabral primou pelo engajamento pela linguagem.


Nelson Pestana — E Morte e Vida Severina, de João Cabral? É também um poema social.

Goiamérico Felício — Morte e Vida Severina é o poema em que ele fez mais concessão, tanto que era o poema que ele menos preza. Ele fez para atender a um pedido da filha dele, que fazia teatro e pediu um auto de Natal.
Nelson Pestana — Agora, o escritor brasileiro mais conhecido em Angola deve ser o Jorge Amado. Acho que li tudo dele. Tanto que, quando fui pela primeira vez à Bahia, fazer uma palestra, tive uma sensação de reencontro, porque já conhecia a Bahia por meio da obra de Jorge Amado. Também vemos muitas novelas brasileiras em Angola. Há sempre uma novela brasileira na televisão pública em Angola. E, agora, a classe média angolana que tem acesso à TV a cabo vê os mesmos programas que vocês aqui, da Globo e da Record, apenas com diferença de horas. E a Globo passa a TV Anhangüera em Luanda, e nós vemos as imagens da Chapada dos Veadeiros, o Memorial do Cerrado. E eles dizem que essas imagens são de Goiás e Tocantins.

José Maria e Silva — O sr. não acha que, agora, o Brasil é que está colonizando Portugal e os países lusófonos da África, através, sobretudo, de sua programação de TV?

Nelson Pestana — Não direi colonização, mas há uma forte influência, inclusive de Angola sobre Portugal. O português do jovem de Portugal já é mestiçado pelos jovens angolanos, filhos de colonos que deixaram Angola depois da independência. São jovens que continuam com fortes laços com Angola, querem voltar ao país e esperam o país melhorar para voltar. São portugueses, mas têm todo o orgulho de afirmar que são angolanos. O último Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa integrou claramente duas palavras angolanas: ope, que quer dizer mais velho, e bué, que quer dizer muito. Mas, para lá dessas duas palavras que entraram no dicionário e são usadas fluentemente pelos portugueses, os jovens, ao conversarem entre si, utilizam fartamente uma linguagem do português angolano. 

(Entrevista publicada no Jornal Opção, de Goiânia, em 16 de novembro de 2003)

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