Cuba treinou 202 brasileiros, diz Exército


Da lista elaborada pelo Exército, há pelo menos três militantes que hoje são parlamentares: os deputados federais José Dirceu (PT-SP) e Fernando Gabeira (PV-RJ) e o deputado estadual do Rio Carlos Minc (PT).


REGIME MILITAR
Álbum confidencial de 1972 dá detalhes sobre guerrilheiros; muitos foram mortos ao voltar para o Brasil
Cuba treinou 202 brasileiros, diz Exército

MÁRIO MAGALHÃES
DA SUCURSAL DO RIO 

O governo de Cuba promoveu, de 1965 a 1971, treinamento de guerrilha para no mínimo 202 militantes de esquerda brasileiros.
Eles fizeram cursos -de três meses a um ano de duração- de guerrilha rural e urbana, fotografia, imprensa, enfermagem, inteligência, instruções revolucionárias e explosivos.
Num programa padrão de seis meses, eram dadas aulas de fabricação de bombas caseiras, uso de armas, sabotagem, camuflagem e outras técnicas de ações clandestinas na cidade e no campo.
Ao voltar, os brasileiros recebiam um kit dos cubanos com US$ 1.000, roupas e orientações para contatar companheiros no Brasil. Havia dez instrutores militares principais.
As informações constam do álbum "Cursos realizados em Cuba", documento confidencial distribuído para órgãos de repressão política em 21 de novembro de 1972 pelo Comando do 1º Exército. O álbum, com 107 páginas, foi encontrado pela Folhano Arquivo Público do Estado do Rio.
As fontes aparentes são depoimentos de guerrilheiros depois presos no Brasil -não é citada a tortura, então disseminada- e agentes infiltrados que cursaram a "escola" cubana.
De acordo com o Exército, outros 43 brasileiros podem ter recebido, no período 1965-71, formação militar do governo comunista de Fidel Castro.
O objetivo era prepará-los para a luta armada contra o regime militar brasileiro (1964-85). Não deu certo.
Entre os "alunos" que passaram por Cuba, muitos foram mortos ao voltar para o Brasil, como Pauline Reichstul, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Assassinada em janeiro de 1973, era irmã do atual presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul.
Outros, como José Anselmo dos Santos, o "cabo Anselmo", também da VPR, viraram colaboradores do regime militar. As delações de Anselmo levaram à morte e ao desaparecimento de vários guerrilheiros, em quantidade até hoje não-esclarecida.
Da lista elaborada pelo Exército, há pelo menos três militantes que hoje são parlamentares: os deputados federais José Dirceu (PT-SP) e Fernando Gabeira (PV-RJ) e o deputado estadual do Rio Carlos Minc (PT).
Dirceu integrou o Molipo (Movimento de Libertação Popular). Gabeira, o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Minc, a Var-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares) e a VPR.
Atualmente, os três são tidos como "moderados" pela esquerda mais radical.
O documento de novembro de 1972 é o mais extenso e detalhado já conhecido sobre cursos para os brasileiros em Cuba.
As organizações guerrilheiras tinham informações fragmentadas, não de conjunto, por isso seus sobreviventes não sabem exatamente quantos foram treinados -estimam de 200 a 300. China e países do Leste Europeu também treinaram brasileiros.
O governo cubano, por seu turno, caso mantenha arquivos sobre a preparação de militantes estrangeiros para atuação armada no exterior, guarda segredo até hoje. A Embaixada de Cuba em Brasília não respondeu ao questionário sobre o tema encaminhado pela Folha.
Por enquanto, a melhor fonte documental para conhecer esse capítulo de um dos períodos mais conturbados na história republicana brasileira são alguns relatórios de quem combatia os guerrilheiros treinados em Cuba.

Periculosidade
A lista do Exército tem os seguintes itens: nome completo, codinome, organização à qual o militante pertencia em Cuba, a sua organização "no momento" e a turma que integrou.
O álbum se divide em nove turmas, de 1965 a 1971. São anexadas fotografias da maioria dos guerrilheiros, com codinome, filiação, data e local de nascimento.
Conforme ofício assinado pelo general Bento José Bandeira de Mello, chefe do Estado-Maior do 1º Exército, o álbum foi produzido para "facilitar os interrogatórios dos elementos suspeitos, considerando o fato de ter frequentado um curso de guerrilha em Cuba como um indício importante para a caracterização da periculosidade de um terrorista".
A lista considerava militantes enviados do Brasil, e não a nacionalidade. Pauline Reichstul, nascida na hoje extinta Tcheco-Eslováquia, a integrava.
Alguns militantes fizeram mais de um curso -nesse caso, a Folhasó computou um nome. A única pessoa a fazer o curso de enfermagem, com vistas à sua integração num grupo de guerrilha rural que não viria a se viabilizar, foi a mãe do comandante da ALN (Ação Libertadora Nacional) Carlos Eugênio Sarmento da Paz.
Conhecido como "Clemente" no seu grupo, Sarmento da Paz -hoje professor de música no Rio- não foi citado na lista do Exército. Motivo: ele seria um dos poucos brasileiros a fazer o curso em Cuba depois da última grande turma, cujas aulas acabaram em 1971. Era integrada por militantes banidos na troca pelo embaixador da Alemanha Ocidental no Brasil Ehrefried von Holleben, sequestrado em 1970.
É possível também que, mesmo antes do movimento que abriu o período de governos militares no Brasil, em abril de 1964, tenha havido treinamento de guerrilha para brasileiros em Cuba.
Não há comprovação. Denise Rollemberg, professora de história contemporânea da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), investiga indícios de que membros das Ligas Camponesas teriam feito curso em Cuba antes de 1964.
Há um ano e meio ela se dedica a uma pesquisa sobre o treinamento de brasileiros pelo governo originário da Revolução Cubana de 1959.
A tese desenhada por Denise Rollemberg é a de que o endurecimento do regime militar brasileiro não levou à opção de setores de oposição pela luta armada, apenas reforçou a tendência.
Segundo o 1º Exército, a primeira grande turma pós-golpe militar foi de 1965, do MAR (Movimento de Ação Revolucionária), de tendência nacionalista.
Em 1966, foi a vez de ativistas do MNR (Movimento Nacional Revolucionário), próximos a Leonel Brizola, que treinaram antes da fracassada tentativa de guerrilha de Caparaó, em Minas Gerais.
A organização com mais militantes foi a ALN, liderada por Carlos Marighella (morto em 1969 em São Paulo), que levou quatro grandes contingentes, de até 28 pessoas, chamados de "1º, 2º, 3º e 4º Exércitos da ALN" no álbum produzido em 1972.
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