Carta aos meus filhos sobre os tempos confusos que vivemos

José Eduardo Agualusa



Queridos filhos,




Quando vocês nasceram, eu acreditava que iriam crescer, alcançar a adolescência e depois a idade adulta, num tempo mais pacífico, mais estável, mais justo e menos confuso do que aquele no decorrer do qual eu próprio me tornei homem.


É verdade que, desde então, diminuiu o número de conflitos. O nosso país, em concreto, alcançou a paz. Os indicadores sociais, na generalidade das nações, melhoraram um pouco. Infelizmente, avançámos menos do que seria previsível. Pior: as nossas lideranças não acompanharam o processo de mudança e renovação. Estas lideranças corruptas e ineficazes são, pelo contrário, o principal travão para essa tão necessária revolução social e cultural.

Em vários países há mesmo, a este nível, um claro recuo ético. Entre nós também. Comparar os nacionalistas que fundaram o MPLA — pessoas, na sua maioria, de ideais generosos e firme integridade moral — com aqueles que hoje controlam o partido, é como comparar a água que brota, quente e límpida, das rochas do Alto Hama, com os esgotos que escorrem, a céu aberto, em muitos bairros da nossa capital.


Não, não era isto que estava combinado.


Numa situação normal, aqueles que estão no poder deveriam ser os melhores de entre nós. Não apenas de um ponto de vista técnico, de conhecimento, mas sobretudo de um ponto de vista ético. Ao mesmo tempo, deveriam ser pessoas conscientes da humildade do seu papel de servidores — um governante é alguém que, transitoriamente, serve o seu povo. Um governante não pode ter mais direitos que o cidadão comum. Terá, isso sim, mais deveres e responsabilidades.


Ao contrário do que pensam muitos dos nossos jovens e crianças, porque a realidade lhes impõe essa visão distorcida, um presidente ou um ministro não se distingue do homem comum pelos sinais exteriores de riqueza; aliás, não se distingue, ou não deveria distinguir-se, do homem comum, senão por estar ao serviço do homem comum.

Queridos filhos: não é fácil ser um cidadão normal, num país como o nosso, onde a anormalidade se tornou a regra. É certo que a corrupção existe em toda a parte — para utilizar uma frase tão do agrado dos nossos governantes; num país normal, contudo, é preciso alguma coragem para se ser corrupto (nos países normais nem todos os corruptos vão presos, mas alguns vão). No nosso país dá-se o oposto: é necessário uma enorme coragem para se ser honesto. Apenas honesto. É necessário ainda mais coragem para denunciar e enfrentar a corrupção alheia. É esta coragem que vos peço.


O futuro no qual vocês se tornarão adultos não irá ser fácil. Vai exigir de vocês um forte espírito de sacrifício e de cidadania.


“E no final, foram felizes para sempre?”


Não sei. Há quem lute e triunfe. E há quem perca tudo, inclusive a vida, no combate pelo bem comum. O único prémio certo será a alegria de terem agido bem e o sono tranquilo quando chegar a noite.


Fonte:

http://www.redeangola.info/opiniao/carta-meus-filhos/



Mário Augusto,
14 de Dezembro de 2016

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Excelente crônica de José Eduardo Agualusa

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