Situação atual dos surtos de febre amarela silvestre no País

O controle da doença depende de :


  • medidas de prevenção adequadas, 
  • imunização da população de risco, 
  • informações e ações de educação em saúde


febre amarela
Mosquito




O aumento do número de casos e de mortes por febre amarela vem causando preocupação na população devido possibilidade de sua urbanização. De acordo com a última atualização do Ministério da Saúde (27/1), 442 casos permanecem em investigação, 87 foram confirmados e 26 descartados. Dos 107 óbitos notificados, 42 foram confirmados e 65 ainda são investigados. Os registros foram em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal, que já descartou todos os notificados. Minas Gerais continua sendo o estado com o maior número até o momento.

O doutor em Medicina Tropical e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), Pedro Tauil, que possui grande expertise no tema no Brasil e nas Américas, concedeu entrevista à Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) pontuando os principais aspectos deste importante tema para a saúde pública.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

SBMT: Professor, explique para os nossos leitores o que é febre amarela.

Dr. Pedro Tauil: É uma doença febril aguda produzida por um vírus que é transmitido por mosquitos. Os principais sintomas são febre, dores musculares, icterícia, hemorragias e insuficiência renal. Cerca de 40 a 50% dos que tem formas graves, morrem. Existem dois ciclos de transmissão: rural e urbano. Do ponto de vista etiológico, clínico e patológico a doença é uma só. A diferença está nos aspectos epidemiológicos. Os insetos vetores do ciclo silvestre, nas Américas, são mosquitos do gênero Haemagogus e Sabethes e os seus hospedeiros principais são primatas não humanos. No ciclo urbano, os vetores são os mosquitos Aedes aegypti e os seus hospedeiros são os seres humanos.

SBMT: Essa nova epidemia já é urbana, ou ainda é exclusivamente silvestre?


Dr. Pedro Tauil: Todos os dados mostram que até o momento, todos os casos foram transmitidos por mosquitos silvestres, em áreas com registro de óbitos de macacos.

SBMT: Quem deve se vacinar contra a febre amarela?

Dr. Pedro Tauil: Pessoas que vivem ou que se dirigem para áreas com circulação do vírus, consideradas pelo Ministério da Saúde como áreas com recomendação de vacina. Existem contraindicações que devem ser levadas em conta para que não surjam eventos adversos que podem ser provocados pela vacina.

SBMT: Como o senhor avalia a declaração de Margaret Chan, Diretora Geral da OMS, feita no ano passado, de que as políticas de controle do A. aegypti utilizadas por décadas falharam globalmente?

Dr. Pedro Tauil: Dada a grande concentração populacional em áreas urbanas no mundo atual, o controle desse mosquito ficou muito mais complexo e difícil. O grande e rápido fluxo rural-urbano após a II Grande Guerra, não permitiu que condições satisfatórias de habitação e de saneamento básico estejam sendo oferecidas a toda essa população. No Brasil, por exemplo, cerca de 20% da população de grandes e médias cidades vive em favelas, cortiços, mocambos ou invasões. Além das medidas tradicionais da eliminação de criadouros potenciais de criação desses mosquitos, há necessidade da busca de novas formas de controle. Algumas estão em desenvolvimento, como mosquitos irradiados com raios gama, mosquitos transgênicos e mosquitos infectados com bactérias do gênero Wolbachia.

SBMT: Em seu ponto de vista, por que depois de tanto tempo, com o Aedes por todos os lugares, a febre amarela ainda não se tornou urbana no País?

Dr. Pedro Tauil: Alguns fatores podem ser lembrados. Graças a um bom programa de vacinação, poucos casos da doença têm ocorrido nas áreas rurais, reduzindo a probabilidade de muitas fontes de infecção para os A. aegypti. Por outro lado, o período de viremia na febre amarela é bem mais curto que o do dengue, exigindo uma densidade de infestação do mosquito bem maior para se infectarem. Porém, o risco existe. No ano passado, Angola teve uma epidemia de FA transmitida por A. aegypti de controle muito difícil e demorado.

SBMT: Por que o Aedes aegypti é tão difícil de combater?

Dr. Pedro Tauil: Há várias razões. Podemos citar algumas: têm uma excelente capacidade de adaptação a condições de proliferação adversas, como altitudes elevadas (acima de 1.000 m); uma antropofilia muito grande, isto é, preferência por sangue humano; cidades que apresentam abastecimento irregular de água, exigindo seu armazenamento, nem sempre adequado, que se comportam como seus criadouros; idem pelo acúmulo de embalagens descartáveis em ambientes abertos e multiplicação de pneus usados não dispostos adequadamente no ambiente; inúmeros depósitos de ferro velho a céu aberto; têm apresentado ao longo dos anos resistência aos principais inseticidas e larvicidas disponíveis; o grande número de prédios torna difícil sua visitação periódica, assim como a insegurança da população em permitir a inspeção de suas casas; dificuldade de obtenção da participação ativa da população na redução dos criadouros potenciais de mosquitos.

SBMT: Em sua opinião, o que falta fazer para o controle do A. aegypti?

Dr. Pedro Tauil: Aprimoramento das técnicas de controle tradicionais, como introdução de novas técnicas mais eficazes. Algumas, já citadas anteriormente, estão sendo desenvolvidas, inclusive no Brasil: mosquitos A.aegypti infectados com a bactéria Wolbachia que se infectam e não se tornam infectantes; mosquitos transgênicos, cujos machos fecundam fêmeas e a prole não chega a insetos adultos; e mosquitos irradiados que se tornam inférteis.

SBMT: Como os mosquitos geneticamente modificados podem combater as doenças transmitidas por A. aegypti?

Dr. Pedro Tauil: Um dos tipos de transgenia é aquele que os machos transgênicos fecundando fêmeas silvestres, a prole não consegue chegar a inseto adulto. Esta técnica, de origem inglesa, está sendo testada também no Brasil.

SBMT: O que o senhor acha de se estudar o efeito da aplicação de inseticidas por via aérea? Não seria uma alternativa mais rápida para o fumacê?

Dr. Pedro Tauil: A aplicação sob a forma de fumacê é indicada em situações muito especiais, quando há intensa transmissão e muitos insetos adultos infectados. Ela contamina o meio ambiente, sendo prejudicial para a saúde de outros animais e para os seres humanos. A aspersão por via aérea aumenta esses riscos e sua eficácia é mais reduzida, pois é mais difícil as partículas do inseticida entrarem em contato com os mosquitos alados.

SBMT: O A. aegypti vencerá a humanidade?

Dr. Pedro Tauil: Não acredito. O controle desses mosquitos será aperfeiçoado, vacinas e tratamentos etiológicos eficazes deverão surgir reduzindo a incidência das doenças por ele transmitidas ou reduzindo sua gravidade.

SBMT: Quais são as perspectivas para futuro? O que se pode esperar da ciência e da tecnologia?

Dr. Pedro Tauil: Justamente a descoberta de técnicas mais eficazes de controle dos mosquitos e de vacinas e tratamentos eficazes e seguros para controlar as doenças transmitidas pelo A. aegypti.

SBMT: Como o senhor imagina que será o impacto da nova política econômica sobre as doenças transmitidas por A. aegypti?

Dr. Pedro Tauil: Elas só terão impacto positivo se conseguirem promover o desenvolvimento econômico com justiça social, isto é, aumentar e distribuir mais equanimemente o produto interno bruto, reduzindo as condições de pobreza de grande parte da população.

SBMT: As mídias da SBMT divulgaram recentemente o fim da epidemia de febre amarela em Angola, uma das maiores do país. O senhor acredita que possa haver alguma conexão da epidemia que o Brasil vive com essa?

Dr. Pedro Tauil: Penso que não, pois a nossa epidemia, até o momento, acredita-se que seja resultado do ciclo silvestre da doença. Em Angola, houve uma epidemia transmitida por Aedes aegypti, portanto, ciclo urbano. Dificilmente algum angolano infectado teria sido a fonte de infecção para nossos mosquitos silvestres.

Fonte:
http://www.sbmt.org.br/portal/consideracoes-em-torno-da-situacao-atual-dos-surtos-de-febre-amarela-silvestre-no-pais/

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