Rússia inicia campanha contra as máfias étnicas



O recente ataque a policiais em um mercado de Moscou desencadeou não apenas uma reação violenta da sociedade, como provocou também uma resposta da própria força policial. O ministro do Interior, Vladímir Kolokoltsev, assinou uma norma que se refere tanto à questão da erradicação da atividade criminosa nos mercados da capital e do controle da obediência às leis de imigração, como ao reforço da luta contra o crime organizado e étnico.

A polícia explicou que as medidas de combate em grande escala irão durar por um longo período de tempo. Assim, as ‘limpezas’ que estão sendo feitas nos mercados da capital são apenas o começo de uma grande operação.

A tensão interétnica crescente em Moscou tem dois componentes principais: o fluxo pouco controlado de imigrantes (principalmente oriundos da Ásia Central e do Cáucaso) e o fluxo livre, sem qualquer supervisão, dos migrantes internos oriundos do Cáucaso do Norte. Enquanto os imigrantes da Ásia encontram trabalho principalmente na construção civil e obras públicas, os caucasianos se dedicam principalmente ao comércio.

A situação nos mercados da capital vem provocando indignação há muito tempo. Mesmo depois de terem sido eliminados os mercados maiores e com mais agitação popular ao longo dos últimos anos, centenas de outros centros de comida e vestuário continuam sendo palco de conflitos interétnicos. A atividade deles tem um caráter bastante obscuro, e acredita-se que esse tipo de atividade criminosa tem a cobertura da polícia.

Kirill Kabanov, membro do Conselho Presidencial para o Desenvolvimento da Sociedade Civil e Direitos Humanos e presidente do Comitê Nacional de Combate à Corrupção, diz que “os principais mercados são controlados por indivíduos da diáspora georgiana e cidadãos do Daguestão e da Kabardino-Balkaria”. Segundo ele, “sem a bênção da polícia”, tais processos não aconteceriam. Por outro lado, nos últimos anos surgiram grupos asiáticos oriundos não apenas da Ásia Central, mas chineses e vietnamitas, que afetam gravemente o meio criminoso de Moscou. “A sua principal característica é a de tentarem controlar nichos de mercado, o que leva a conflitos violentos.”

Kabanov explica que o dinheiro ganho ilegalmente nos mercados é canalizado para fins criminosos. Pelas suas estimativas, o lucro financia o crime organizado em até 60%. Para que a polícia deixe de dar proteção a esses grupos organizados que controlam os mercados e passe a combatê-los, seria necessário erradicar a corrupção dentro do próprio MI. “Por que no último conflito os policiais tentaram dispersar educadamente os infratores?”, questiona Kabanov. “Porque caso contrário podem receber uma repreensão de seus superiores, que protegem a atividade dos mercados, e porque eles próprios, no final das contas, lucram um pouco com a atual situação”, responde a si mesmo, acrescentando que a luta contra a corrupção deve ser feita vertical e horizontalmente.

Se o problema for ignorado, ele poderá levar a novos conflitos interétnicos. De acordo com Gueórgui Fiôdorov, membro da Câmara Pública da Rússia, “a atividade dos grupos étnicos criminosos provoca uma resposta negativa no seio da sociedade e ativa grupos nacionalistas radicais, o que, em última análise, pode levar a sérios confrontos de cariz étnico”.

Agora, muito vai depender do compromisso do ministro do Interior para combinar a luta contra os grupos étnicos do crime organizado com a limpeza de suas próprias fileiras. “Acho que vai acontecer uma limpeza geral que pode realmente melhorar a situação”, diz Kabanov. “As forças do MI, combinadas com a vontade política, são suficientes para combater os grupos étnicos que se dedicam ao crime organizado. As atuais chefias do MI estão bem aparelhadas de informação. O próprio Kolokolts era investigador e, ao contrário dos anteriores ministros, passou por toda a hierarquia da polícia.”

20 anos de conflito

O problema dos mercados e das atividades criminosas de grupos étnicos já tem duas décadas de existência. Inicialmente, o controle do comércio de Moscou estava nas mãos de uns poucos grupos mafiosos, formados por naturais do Cáucaso, aquilo que no jargão policial se chama de grupos do crime organizado (GCO).

Aos poucos, foi acontecendo entre eles a divisão de áreas de influência, tanto territorial, como setorial. Os mais fortes eram considerados os grupos organizados da Geórgia, Tchetchênia, Azerbaijão, Armênia e Daguestão.

Na primeira década deste século, a posição dos GCO da Transcaucásia começou a enfraquecer. Os do Cáucaso do Norte ocuparam o território deles em Moscou, em número suficiente para travar uma batalha pelos mercados e o comércio. Foi então que se formou definitivamente um sistema de corrupção.


Original de Vzgliad

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