Virologistas querem provocar mutações no vírus da gripe aviária H7N9 para evitar possível pandemia



Vinte e dois virologistas publicaram uma carta nas edições desta semana das revistas Science e Nature onde justificam um plano de investigação para, em laboratório, provocar mutações no vírus da gripe aviária H7N9, tornando-o facilmente transmissível de humano para humano. O objetivo é travar uma possível pandemia deste vírus.


Vírus das aves H7N9 a saírem de uma célula TAKESHI NODA/UNIVERSIDADE DE TÓQUIO


Este vírus da gripe transmite-se normalmente das aves para as pessoas e já infectou na China cerca de 130 pessoas, matando 43. Só se identificou, até agora, um caso em que a transmissão foi feita entre duas pessoas. Apesar de ainda não ter capacidade de passar com eficácia entre humanos, os investigadores defendem que identificar mutações que podem tornar o H7N9 facilmente transmissível entre pessoas é importante para se evitar uma possível pandemia.

“Apesar do surto deste vírus H7N9 estar agora sob controlo, o vírus (ou outro parecido) pode reaparecer com a chegada do Inverno”, explica o artigo assinado por vários autores, incluindo Ron Fouchier, do Centro Médico Erasmus, em Roterdão, na Holanda, e Yoshihiro Kawaoka, da Escola de Medicina Veterinária, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. “Para analisar por completo o risco potencial [de pandemia] associado a este novo vírus, há a necessidade de mais investigação, incluindo experiências de ganho de função”, lê-se no artigo.

Estes trabalhos de ganho de função passam por, no laboratório, provocar mutações nos vírus que o façam ganhar novas capacidades de transmissão. Ron Fouchier e Yoshihiro Kawaoka estiveram envolvidos numa grande controvérsia no final de 2012 e em 2013 por terem feito este tipo de experiências com o vírus da gripe H5N1. Em 2012, depois de gerarem mutações neste vírus da gripe, mostraram em experiências diferentes que o H5N1 passou a transmitir-se facilmente entre furões, o modelo mais parecido com os humanos para estudar o vírus da gripe.

Os trabalhos eram inéditos e causaram várias críticas na comunidade científica devido aos riscos destas experiências. Muitos investigadores mostraram-se preocupados com a produção humana de vírus perigosos que, por descuido ou como arma biológica, poderiam sair dos laboratórios e causar uma pandemia. Uma das maiores críticas foi a falta de transparência das experiências, por isso os investigadores resolveram publicar esta carta para mostrar, desde já, as suas intenções.

Apesar dos argumentos dos 22 cientistas e de uma descrição pormenorizada dos cuidados laboratoriais a que estas experiências teriam de se submeter, o departamento dos Estados Unidos para os serviços de saúde humanos publicou um artigo na revista da Science adiantando que projectos destes teriam de ter uma avaliação reforçada.

“É necessário ter um sentido de perspectiva”, lê-se por sua vez no editorial da edição desta semana da revista Nature. “Os benefícios de longo prazo deste tipo de experiências são claros – desde que sejam feitas com os maiores padrões de biossegurança. [Estes estudos] irão trazer luz aos mecanismos de transmissibilidade e de patogenicidade dos vírus. Mas os benefícios imediatos para a saúde pública e para a nossa capacidade actual de conter a ameaça do H7N9 são menos nítidos. Os cientistas não podem prever as pandemias, por isso, produzir um vírus potencialmente pandémico – e decidir quais são as estirpes que justificam a produção de vacinas experimentais – resume-se a uma avaliação do risco relativo.”
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