Convivência com seres humanos altera a dieta de bugios e os expõe à febre amarela


Vizinhos próximos demais



Bugios :Louro de nascença: só os machos adultos são escuros

“No sítio da minha avó os bugios invadem o galinheiro para roubar ovos.” Especialistas em macacos por muito tempo ouviram relatos assim e os ignoraram como se fossem lendas. Eles sabiam muito bem que esses macacos só comem plantas. Agora isso mudou. A equipe do primatólogo Júlio César Bicca-Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mostrou que os bugios-pretos (Alouatta caraya) de fato roubam ovos de ninhos ou de galinheiros para complementar a dieta quando as folhas e frutos disponíveis não bastam para matar a fome. A escassez do passadio preferido, porém, não é o único problema enfrentado por esses primatas no sul do país: a febre amarela tem feito vítimas entre os primatas, que ainda são injustamente acusados de ser responsáveis por disseminar a doença
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As suspeitas quanto aos lanches pouco ortodoxos dos bugios começaram há 20 anos. Enquanto fazia pesquisa de mestrado, na região de Alegrete, no oeste do estado gaúcho, o casal de primatólogos Bicca-Marques e Cláudia Calegaro-Marques ouviu relatos do dono da propriedade e desconfiou do interesse com que bugios examinavam ninhos nas árvores. Os macacos do gênero Alouatta, os bugios, são os mais estudados na natureza entre os primatas das Américas. Nas últimas décadas, grupos de pesquisa de vários países passaram ao todo mais de 50 mil horas observando bugios desde o México até a Argentina. Mesmo com todo esse tempo de observação, ninguém tinha até agora registrado uma dieta que não fosse de um vegetarianismo radical. “Eles preferem comer frutos maduros e folhas novas”, explica o primatólogo.

Mas na zona rural gaúcha, há muito povoada por pessoas que se dedicam à agricultura e à pecuária, pomares e eucaliptais tomaram o lugar de florestas nativas. Sem as matas de galeria, aquelas que acompanham os rios e produzem a maior parte dos frutos e folhas que compõem o cardápio dos bugios, esses macacos se veem obrigados a improvisar. É assim que Bicca-Marques justifica a dieta alternativa dos bugios gaúchos. Para corroborar a hipótese, ele tem concentrado o trabalho de seus alunos em áreas com vegetação alterada. Num pomar dominado por laranjeiras próximo à área onde ele e Cláudia trabalhavam 20 anos atrás, Helissandra Prates descobriu que os bugios se refestelam na época das laranjas e até comem as folhas dessas árvores, repletas de um óleo em geral pouco apreciado por herbívoros. Helissandra também viu dois macacos lambendo o interior de um ninho.

Numa propriedade com um bosque dominado por eucaliptos no município de Tupanciretã, mais no centro do estado, Carina Muhle viu bugios comerem flores e até casca dessas árvores que também não fazem parte da flora natural da região. Nessa fazenda, ela viu os macacos invadirem o galinheiro para roubar ovos, mesmo tendo que se esgueirar por uma fresta acima da porta fechada.

As observações, publicadas na edição de outubro do International Journal of Primatology, foram bem recebidas por especialistas. “Demorou 20 anos para publicar­mos, mas o resultado compensou a espera”, comemora o primatólogo, que tem sido procurado por colegas brasileiros e de outros países, interessados na descoberta. Muitos deles só agora, depois de verem a descoberta impressa em artigo científico, começaram a levar a sério relatos ouvidos ao longo dos anos sobre invasões de galinheiros por bugios e responsabilizando os macacos pela escassez de aves como as caturritas em praças de cidades do interior. Assim, o trabalho do grupo gaúcho pode catalisar novas descobertas sobre os hábitos alimentares em várias espécies de bugios. O próximo passo é fazer experimentos para avaliar o interesse desses macacos pelos ovos e observar seu comportamento alimentar com mais detalhe em diversas regiões.

Anjos da guarda



Ter que recorrer a uma dieta alternativa não é o único problema – nem o mais grave – que os bugios enfrentam por conviver com seres humanos. Várias centenas dos macacos morreram em 2008 e 2009 durante um surto de febre amarela silvestre. “A febre amarela surgiu na África e veio nos navios negreiros”, conta Bicca-Marques, “por isso os macacos do Novo Mundo, como os bugios, são sensíveis à doença”. A história mais longa de convivência do ser humano com o vírus nos dá uma resistência maior. É por isso, segundo o primatólogo, que as pessoas são as grandes responsáveis por espalhar a doen­ça – não só no século XVI, mas agora também. Entre 40% e 60% das pessoas infectadas não têm sintomas aparentes, mas espalham o vírus. Com os bugios é diferente: durante os três a sete dias em que a doença faz estragos no organismo eles ficam prostrados e inativos, e a maioria morre. Assim, não têm oportunidade de disseminar o vírus.

“Os bugios são na verdade sentinelas que podem indicar aos órgãos de saúde a necessidade de vacinar a população humana”, afirma Bicca-Marques. Por isso, ele diz que proteger os bugios é também uma questão de saúde pública. Veio daí a campanha “Proteja seu anjo da guarda”, lançada por ele para impedir que os habitantes das áreas rurais matem os bugios por medo de que disseminem a febre amarela. A iniciativa põe em evidência uma relação de mão-dupla: assim como os macacos podem proteger as pessoas anunciando a presença do vírus, a vacinação das pessoas é também uma questão de proteção da biodiversidade.


História Fonte
Fapesp
MARIA GUIMARÃES | ED. 165 | NOVEMBRO 2009

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